Em exibição nos cinemas, Horas de verão (L'heure d'été, França, 2008), de Olivier Assayas, bela e profunda reflexão sobre a dissolução das artes, da família, das tradições e das relações pessoais, que, pressionadas pelo mau-gosto do nosso tempo, cedem lugar às trivialidades e à valorização de uma existência pautada em critérios monetários e de êxito pessoal, no trabalho. Neste sentido, o filme promove um diálogo aberto com Assédio, de Bernardo Bertolucci, no qual um pianista, durante seu concerto para uma platéia seleta, vê sua música substituída por uma bola de futebol e o alvoroço que esta promove na sociedade. O auge de Horas de verão — e não por acaso sua cena final — se dá quando uma mocinha e seu namorado de momento pulam o muro e fogem da propriedade que pertenceu à avó da garota, reduto de pintores, bom-gosto artístico e acervo cultural, mas agora vazia, sem existência nem sentido, embora repleta de música, juventude, bebida e, obviamente, drogas. (As vontades mudam conforme o tempo, e os tempos, conforme as vontades.) Mas para onde vão aqueles dois? Que lugar procuram? Nenhum. Num mundo de padronizações e repetições, onde todos os países e todas as culturas se inspiram num único modelo, todos os lugares são o mesmo lugar. Franco, duro, lacônico e metafórico, Horas de verão só não é melhor porque não foi dirigido pelo mestre Eric Rohmer, que certamente o apreciou — se ainda está vivo e o assistiu.
segunda-feira, 14 de setembro de 2009
VÁ E VEJA, 4
Em exibição nos cinemas, Horas de verão (L'heure d'été, França, 2008), de Olivier Assayas, bela e profunda reflexão sobre a dissolução das artes, da família, das tradições e das relações pessoais, que, pressionadas pelo mau-gosto do nosso tempo, cedem lugar às trivialidades e à valorização de uma existência pautada em critérios monetários e de êxito pessoal, no trabalho. Neste sentido, o filme promove um diálogo aberto com Assédio, de Bernardo Bertolucci, no qual um pianista, durante seu concerto para uma platéia seleta, vê sua música substituída por uma bola de futebol e o alvoroço que esta promove na sociedade. O auge de Horas de verão — e não por acaso sua cena final — se dá quando uma mocinha e seu namorado de momento pulam o muro e fogem da propriedade que pertenceu à avó da garota, reduto de pintores, bom-gosto artístico e acervo cultural, mas agora vazia, sem existência nem sentido, embora repleta de música, juventude, bebida e, obviamente, drogas. (As vontades mudam conforme o tempo, e os tempos, conforme as vontades.) Mas para onde vão aqueles dois? Que lugar procuram? Nenhum. Num mundo de padronizações e repetições, onde todos os países e todas as culturas se inspiram num único modelo, todos os lugares são o mesmo lugar. Franco, duro, lacônico e metafórico, Horas de verão só não é melhor porque não foi dirigido pelo mestre Eric Rohmer, que certamente o apreciou — se ainda está vivo e o assistiu.
quarta-feira, 9 de setembro de 2009
UM DIA PARA LEMBRAR
Neste exato momento, na sala, tocam, meio desafinadamente, o Hino Nacional Brasileiro. É jogo do Brasil, e os baianos gritam, vibram, aplaudem. O Brasil para os brasileiros é isso: 11 camisas amarelas em campo atrás de uma bola. Compreensível. Estão se preparando, ensaiando corpo e garganta para a presepada do ano que vem, na Copa do Mundo: a luta pelo hexacampeonato.Quem me conhece sabe que não vou ver o jogo. Há muitos anos que não torço para a Seleção Brasileira de Futebol, que a Globo assumiu e controla, que os empresários controlam e que os jornalistas fingem não controlar...
Mas não é disso que eu quero falar. Isso é muito pouco diante do que aconteceu na cidade nas últimas 48 horas e sobretudo hoje, antes deste jogo. Mas todos acham que tudo está bem: o Brasil está jogando, em 2014 a Copa será aqui, e Salvador é uma das cidades-sedes, também teremos corrida de carro todos os anos (isso é sinal de algum avanço), o Carnaval é o mesmo ópio de sempre, somos um dos últimos estados em Educação do País, e também um dos últimos em número de livros lidos por ano. Desculpem, estou exagerando: lemos mais de um livro ao ano, embora menos de dois.
Mas o que aconteceu hoje, eu ainda não disse... É porque é difícil. Mas vamos lá, em outros lugares isso já é comum, e aqui também será, é só questão de tempo: a violência e a ignorância não escolhem geografia nem clima. Estão, ao mesmo tempo presentes e ausentes, em todos os lugares.
O que houve foi que, à tarde, na Estação da Lapa, um rapaz de 18 anos foi morto a tiros, não se sabe por quem nem por quê, numa cena bem cinematográfica, iluminada, limpa, em cenário coletivo (uma estação de ônibus) e em plena jornada de trabalho...
Não muito longe dali, na Av. Vasco da Gama, mais um ônibus era incendiado por traficantes de drogas, em protesto contra a ida de seu chefinho, sem o qual eles não podem viver, para um presídio de segurança máxima no Mato Grosso: agora prisão virou sala de controle do tráfico, só falta instalar tevê, ar condicionado, cozinha, quarto com suíte e piscina...
E eu, um pouco mais tarde, numa livraria, era chamado por um desconhecido (durante a conversa particular que eu travava com um amigo sobre o desempenho dos times no Campeonato Nacional), de racista, sim, racista, simplesmente porque torço para o Fluminense Football Club, do RJ, cujos jogadores, negros, nos primórdios do futebol, tingiam a pele com pó-de-arroz para ficarem brancos e fugirem aos insultos da torcida. Por isso eu sou racista. Só por isso. Eu, que nasci em 1962, no auge da Era Pelé. Mas foi o que ele disse: "Todos os tricolores são racistas! Todos!"
Ao fim, voltando para casa, me perguntei o que aquele sujeito estava fazendo numa livraria. Ora, os livros podem oferecer muitas coisas (informação, conhecimento) e promover outras (destreza de pensamento, desenvoltura da fala e uma certa melhora no nível do raciocínio), menos capacidade de compreensão, inteligência e sensibilidade. E é só por isso que não culpo pela alcunha que me deram, que creio imerecida, a péssima Educação Formal oferecida ao povo deste Estado, nem o fato de que lemos tanto quanto visitamos as estrelas. Os livros, e consequentemente a Educação, só podem até o limite do homem. E os limites, como os indivíduos, são muitos e vários.
Ops! Ia esquecendo. Vai tudo muito bem: o Brasil está ganhando. Até quando?
sábado, 5 de setembro de 2009
HISTÓRIA DE AMOR
O ovo de ouro, de Tim Krabbé, é um dos mais impressionantes e perfeitos romances policiais já escritos, e ainda mais porque vem de uma literatura pouca afeita ao gênero: a literatura holandesa. O argumento é simples: Rex e Saskia, de férias, estão na estrada. O destino do casal, uma casinha numa colina acima do Mediterrâneo. Dias livres, sol, só eles dois, paz, aconchego, initimidade. Quando param num posto de gasolina, Saskia desaparece. Nós, leitores, sabemos que ela foi sequestrada pelo terceiro personagem da história, um professor, mas Rex não. Daí por diante, por meses e anos a fio, através de campanhas na tevê e nos jornais, ele busca saber o paradeiro da namorada. Apela ao criminoso, roga que ele apareça, ao menos para lhe revelar o que aconteceu com Saskia. Até que um dia o criminoso o procura... O resto da trama, o seu desfecho propriamente dito, se revelado aqui, embora não chegasse a tirar o brilho e a força desta história, poderia fazer alguns leitores perder o interesse pela leitura. O certo é que ninguém jamais sairá ileso deste livro, que foi filmado na Holanda em 1991, ganhando vários prêmios internacionais, e depois, em 1993, nos EUA, com o final alterado, o que acabou por diluir o efeito aterrorizante, e metafórico, da história original. Nas duas versões, o título no Brasil foi O silêncio do lago. Um livro que jamais será esquecido por ninguém, mesmo porque conta, através de um sequestro, uma dolorosa história de amor, e as histórias de amor são inesquecíveis. O autor, Tim Krabbé, é jornalista, escritor e jogador de xadrez.
segunda-feira, 31 de agosto de 2009
sábado, 29 de agosto de 2009
A OUTRA "AMY FOSTER"
A outra edição de Amy Foster no Brasil é esta, inclusa no volume Tufão e outras histórias (Typhoon and outher stories), que reúne, além de Amy Foster, os contos Tufão e Amanhã. Nascido na Polônia em 1857, com o nome Józef Teodor Konrad Naleck Korzaeniowski, Conrad acabou por se tornar um dos maiores prosadores de língua inglesa e um autor cultuado sobretudo pelos escritores. Tinha uma predileção por personagens solitários e amargurados, anti-heróis que, como ele, Conrad, tinham que lutar por seu lugar no mundo. Com seu estilo descritivo e inigualável, dado a incursões psicológicas e nuances de primitivismo, articulou romances ora densos ora movimentados que influenciaram inúmeros romancistas do século XX, na Inglaterra e no mundo, entre os quais Faulkner, O'Hara e Lowry.
ETNOCENTRISMO: AMY FOSTER
Um náufrago chega às praias de Colebrook, na costa da Inglaterra. Como não fala sequer uma palavra em inglês, pois nasceu num inominado país do Leste europeu, de onde partiu em busca de uma vida melhor na América, é considerado um maluco e recolhido ao depósito de madeira do Sr. Smith, cuja mulher, só de ver o estranho, ficou histérica. Mais tarde, já relativamente adaptado ao lugar, e namorando Amy Foster, o homem tenta levar uma vida normal, mas é impossível: não fala inglês, que não consegue aprender, canta nas tabernas músicas que ninguém conhece, dança de maneira insólita (batendo os tornozelos, estalando os dedos, acocorando-se e esticando uma das pernas), e, por isso, "foi posto para fora com violência; ganhou um olho preto". Quando bem mais tarde, já casado com Amy (outra estranha, e não é por outro motivo que eles se casam, embora ela fale inglês, seja do lugar) e pai de um filho, ele fica deprimido e melancólico a ponto de adoecer, acham que ele está maquinando algo, que sua loucura chegou a outro estágio, talvez mais perigoso... Metáfora (ou alegoria) da incapacidade de se lidar com as diferenças, com o outro, este é um dos melhores e mais incisivos contos longos de Joseph Conrad (1857-1924) sobre o etnocentrismo: "Ah, ele era diferente: um coração inocente e cheio de uma boa vontade que ninguém queria, esse náufrago, que, igual a um homem transplantado para outro planeta, estava separado de seu passado por um espaço imenso, e de seu futuro, por uma imensa ignorância. Sua fala rápida, vigorosa, positivamente chocava todo mundo. 'Um demônio nervoso', era como o qualificavam". Nesta edição de 2007, pela Revan (RJ), afirma-se na orelha que esta obra de Conrad era até então inédita no Brasil. Não era. Foi publicada antes, em 1985, pela L&PM, do RS, no volume original intitulado Tufão e outras histórias, em tradução de Albino Poli Jr. Amy Foster é um grande texto de Conrad, que chega a pelo menos duas traduções de qualidade no Brasil e que deve ser lido por todas as pessoas, afinal de contas, quando não somos os outros, somos os mesmos, e vice-versa. E vale lembrar que, quando perguntaram ao francês Paul Claudel que obras de Conrad deveriam ser lidas, ele respondeu, sem hesitar: "Todas!" Ênfase que, nas palavras de seu compatriota André Gide, atinge o paroxismo: "Entre meus maiores, eu não amava nem reconhecia ninguém mais do que ele". Joseph Conrad.
quinta-feira, 27 de agosto de 2009
O GIBI JUBIABÁ
Amanhã, a convite da Fundação Pedro Calmon, para o seminário A atualidade de Jorge Amado, estará entre nós, na LDM Livraria Multicampi, às 17 horas, o cartunista paulista Spacca, autor da recente adaptação de Jubiabá para os quadrinhos.Particularmente, não sou do tipo que espera encontrar fidelidade num filme extraído de um texto literário. São linguagens distintas, que demandam escolhas ora funcionais ora artísticas, sem contar as dificuldades que há em transpor para a “imagem visível” uma cena que no romance ou no conto é apenas sugerida pela força ou pelo sentido das palavras.
Com as histórias em quadrinhos não é diferente. Spacca teve que eleger sequências importantes e abdicar de outras. Deixou de lado uma das passagens mais bonitas do romance de Jorge Amado ― o capítulo “Vagão”, que pode ser lido como um conto ― em favor de uma narrativa mais fluida e acelerada, de uma representação mais pitoresca da realidade expressa no romance e também da personalidade de Balduíno, que mistura austeridade e arrogância. “Vagão” se insere num ponto de interlúdio da narrativa, quando Baldo, após agredir um peão da fazenda de fumo, escapa pelos matos e toma um trem para Feira de Santana. O ambiente sombrio e opressivo do interior do vagão contamina os personagens e os impõe a refletir sobre suas vidas e sobre a existência de um modo geral, num tom quase de adágio, que contrasta com o resto do romance, mais febril e colorido.
O próprio Spacca admitiu o ritmo lento e destoante deste trecho, optando por sua supressão. Ou seja, o que no romance Jubiabá é natural ― afinal de contas estamos diante de um gênero que se notabilizou mais pelo seu caráter informe que propriamente pela exatidão, e que se permite qualquer arrojo formal ―, no gibi torna-se um excesso, uma matéria sem grande utilidade e que, para o bem da trama, precisa ser polida. Isso é uma evidência de que as histórias em quadrinhos estão mais próximas do cinema que da literatura e que adaptar um romance para os quadrinhos se assemelha muito a transportá-lo para a luminosidade embriagante da tela.
Este é, aliás, um dos grandes trunfos do gibi Jubiabá. É puro cinema, sem deixar de ser uma ótima adaptação de um dos grandes romances brasileiros do século XX. Não tenta ser literário e acaba por conservar, paradoxalmente, a dicção do romance, preservando muito do estilo do autor e, em especial, o tom picaresco da fala dos personagens: “Dê seu jeito”, diz Baldo quando Osório, noivo de Maria dos Reis, os surpreende juntos ― fala e corpo conjugados magistralmente (p. 35). E então sabemos, de antemão, que a pose de Baldo não é bravata, é força mesmo, coragem do autêntico boxeador que ele será.
Posso estar enganado, mas acredito que esta adaptação de Jubiabá vai formar e motivar muitos leitores jovens: de quadrinhos, cinema e literatura. Estamos precisando.
domingo, 23 de agosto de 2009
FUGIR
Uma trama que é só um pretexto para uma aventura, e uma revelação. O mais recente romance do belga Jean-Pierre Toussaint elege a narrativa oriental como tom e faz da linguagem um meio para captar cores, formas, odores, sensações, espaços, épocas, objetos, atmosferas perdidas ou que vão se perder. Ao fim, descobrimos que tudo, da primeira à última palavra, do gesto mais brusco ao olhar mais sutil, forma uma aventura que vai obrigar o protagonista a tomar uma decisão, responder à pergunta: "Será que eu acabaria tudo com Marie?" Ora, ele já respondeu que sim, na segunda linha do romance: "No verão anterior à nossa 'separação', tinha passado algumas semanas em Xangai (...)". Só não sabemos como. O romance é este 'como', e passa por Xangai, Pequim e pela ilha de Elba, onde tudo se decide, em braçadas marinhas de desespero, pavor, amor e amizade. Um périplo no qual a história pouco importa. O fluxo da vida não permite organização com começo, meio e fim precisos. Apenas experiências, que ora faltam ora sobram, e com as quais, se a vida não é clara, benéfica, ao menos torna-se suportável.
sábado, 22 de agosto de 2009
UM CLÁSSICO!
Finalmente, com 46 anos de atraso, chega ao Brasil O planeta dos macacos, de Pierre Boulle, romance francês de ficção científica que inspirou o filme homônimo, de 1967. Adeptos, cultores e outros aproveitem! A edição, pela Agir, integra a coleção Pocket Ouro, série Grandes Filmes, a preço relativamente módico. Quem não se lembra da cena em que Taylor, a cavalo, com a bela Nova na garupa, na praia, avista de repente a Estátua da Liberdade tombada e destroçada? Segundo Nelson de Oliveira: "Um clássico!"
sábado, 15 de agosto de 2009
CINEMA DE PROPOSTA
Não posso analisar a produção cinematográfica atual, pois me falta suficiente conhecimento técnico e estético, mas posso expor minhas impressões. O que tenho notado é o mundo cinematográfico dividido em dois pólos: cinema de entretenimento de um lado e cinema de proposta de outro. Já não podemos usar a expressão cinema de arte, pois este conceito mudou muito e reúne hoje tanto a produção independente quanto a de países exóticos, sem muita tradição em cinema. Então prefiro esta expressão, tirada de Umberto Eco: cinema de proposta. Um cinema que quebre clichês, introduza novos assuntos, arrisque novas formas narrativas, dialogue com os clássicos, desloque nosso olhar para outros ângulos, subverta os gêneros, nos diga que a realidade é mais complexa do que nos quer fazer ver Hollywood ou a Globo Filmes. Que nos mostre, metaforicamente, a verdadeira face do mundo. Exemplos: Adeus Lênin, Irreversível, A passagem (Stay), 21 Gramas, O último beijo, Corra Lola corra, A janela da frente, Domésticas, O invasor, Nina, Cidade dos sonhos, 2046, Amor à flor da pele, Agora ou nunca, As luzes de um verão, Entre quatro paredes, O amigo do defunto, A isca, Caché, Os sonhadores, A vida dos outros, Encontros e desencontros, Ninho vazio, O nome dela é Carla, Vocês, os vivos, Import export, Quando um estranho chama, Reconstrução de um amor, Respiro, Alila, Chuva de verão, Lantana, Mar aberto etc.
terça-feira, 28 de julho de 2009
CAPA E MIOLO
"A contragosto acabou por ceder à tentação de espiar pela fechadura e, quase de joelhos, apoiou a mão na moldura da porta.A claridade do quarto era avermelhada, como que protegida por um abajur de seda. A cama ficava à direita, bem alta, e na borda estava Louise, de joelhos afastados, exatamente na pose da mulher que contaminara Élie, enquanto Michel, de pé, penetrava-a com longos movimentos ritmados.
Via-os a ambos de perfil. A moça, talvez por causa da iluminação, estava muito pálida, lábios da mesma cor da pele, narinas contraídas, olhos fechados. Seu rosto não expressava nada. De tão imóvel parecia morta.
Michel não falava, não sorria e, de onde se achava, Élie ouvia-lhe a respiração em sintonia com os movimentos.
Só no fim Louise sofreu dois ou três estremecimentos nervosos. Seu rosto crispou-se sem que ele soubesse se de dor ou prazer; o homem ficou um instante imóvel, recuou um passo, teve um risinho seco e estendeu-lhe a mão para ajudá-la a levantar-se."
Poucos livros apresentam uma capa tão em sintonia com uma sequência interna como este de Simenon. De autoria de Victor Burton, principal ou talvez único capista da Nova Fronteira da época, reflete na representação do orifício de uma fechadura tanto uma iniciação sexual que foi dolorosa quanto uma descoberta que mudará para sempre a vida daquele que vê, o protagonista. Melhor seria se Élie não tivesse visto nada, pois, de joelhos como em reverência, ele descobre ao mesmo tempo o mistério, a beleza, o sonho e o horror. E tomará a decisão das decisões: matar. Crime impune é um dos melhores romances não-policiais de Simenon, obras nas quais ele reúne seu estilo inconfundível, técnica impecável, uma arte que não se exibe como tal e o assunto de sua predileção, recorrente: as existências vazias de sentido.
quarta-feira, 22 de julho de 2009
AS PUPILAS DE SAFO, 1
FÉRIAS Na chegada, o pé de jasmim dava boas-vindas.
O cheiro declarava:
“É tempo de ser feliz”.
Antes de dormir, conversas e risos com cheiro de maresia,
Bolo de aipim com café.
Tia Belmira revistava o quarto,
E já se pensava no outro dia...
O jasmim é memória viva.
Lembro e relembro.
O cheiro aguçava, e era tudo brincadeira...
Lembro e relembro.
O cheiro aguçava, e era tudo brincadeira...
CARMEN AZEVEDO. Funcionária do Estado, trabalha há quase 30 anos no âmbito da Cultura, tendo colaborado com a redação do livro Memória da cultura: 30 anos da Fundação Cultural do Estado da Bahia (2004).
Quadro: José Pancetti (1902-1958).
terça-feira, 21 de julho de 2009
STALKER A CAMINHO!
Apesar da tentativa de embargo, a Portal Stalker está a caminho. A mensagem de hoje de manhã do Nelson de Oliveira, editor da revista, não deixa dúvida: "Amigos, tentaram impedir que eu enviasse, pelo correio, meus exemplares do Portal Stalker. Fui até detido pra interrogatório... Mas consegui passar os envelopes pra Tereza, minha mulher, que já despachou tudo hoje de manhã. Vitória!"
PORTAL STALKER. Sua revista de ficção científica.
domingo, 19 de julho de 2009
AS AVENTURAS DE NICOLAU & RICARDO: DETETIVES
5. O SONHONicolau não entendia por que tanta celeuma em torno do quê ou de quem matou Michael Jackson. Era óbvio, e foi isso que ele tentou expor a Ricardo, sem sacrificar o humor, naquele bar cheio, e com os presentes, todos, atentos ao blablablá da tevê:
“O cara almoçou, comeu algo pesado – uma bela feijoada, digamos – e depois foi dormir. Sonhou que tinha voltado a ser negro e, de susto, o coração parou”.
Ricardo riu, e Nicolau lhe fez coro.
Quando pararam, tinham sobre si algumas dezenas de olhos, cujo brilho multiplicava-se em garfos e facas.
Em breve, mais um episódio da segunda temporada. Imagem: cena do filme Infância roubada (2005), de Gavin Hood, baseado num romance de Athol Fugard.
segunda-feira, 13 de julho de 2009
O LIVRO QUE PROCURAMOS
Em seu livro intitulado O caderno vermelho, o escritor Paul Auster arrola histórias supostamente reais de coincidências e estranhas coincidências. Uma das mais curiosas é a de um sujeito, amigo de Auster, que procurava um determinado livro, para ele raro. Depois de muito percorrer sebos e livrarias e de consultar catálogos, sem sucesso algum, e tendo praticamente desistido da busca, ele estava um dia perambulando por Nova Iorque, quando avistou uma jovem de pé junto a uma balaustrada de mármore, lendo exatamente o livro que ele procurava. Embora espantado, e ainda mais envergonhado por ter de abordar uma pessoa estranha, ele disse:“Tenho procurado este livro por toda parte...”
“É maravilhoso. Acabei de ler neste instante”, respondeu a moça.
“Sabe onde posso achar outro exemplar?”, perguntou o amigo de Auster. “Isso é muito importante para mim.”
“Este aqui é para você”, disse a jovem, com a maior naturalidade.
“Mas ele é seu”, retrucou o homem.
“Ele 'era' meu, mas agora eu já acabei de ler. Eu vim aqui hoje para entregá-lo a você.”
Um caso sobrenatural, fantástico, ou um jogo da moça, aproveitando a insólita situação? Quem sabe? E, se souber, guarde o conhecimento para si, em favor da ambiguidade.
Fonte: AUSTER, Paul. O caderno vermelho. São Paulo: Companhia das Letras, 2009. p. 26.
Foto: Nathy Silva.
sexta-feira, 10 de julho de 2009
ARTE VERSUS CULTURA
Quando ouço a palavra cultura (e é só o que ouvimos atualmente, em detrimento de tudo o mais), penso nesta precisa definição do cineasta francês Jean-Luc Godard: "Cultura é regra, arte é exceção; e é da natureza da regra eliminar a exceção".Imagem: cartaz de Pierrot le fou (1965), de Jean-Luc Godard.
terça-feira, 7 de julho de 2009
O POLICIAL
Livros como A lua na sarjeta, O homem que via o trem passar, O destino bate à sua porta, O longo adeus e Fuga para o inferno são policiais porque assim foram rotulados quando de sua primeira edição. Mas, se comparados ao romance O estrangeiro, ao conto A cartomante, a São Bernardo, a Crime e castigo, a Crônica de uma morte anunciada ou a Noite, de Érico Veríssimo, não há diferença alguma. Todos são literatura porque são reflexão sobre a vida e o indivíduo. E, se alguém me disser que o que separa o gênero policial da chamada alta literatura é a linguagem, digo que ser límpido e direto também é uma arte, e que, assim, James M. Cain e Graciliano Ramos se equivalem, pois são predominantemente secos e ácidos, assim como Simenon e Dostoiévski são psicológicos, e Goodis e Camus, poéticos. Mas, se ainda assim persistir a dúvida, lembro que dois dos inventores do gênero policial são nada mais nada menos que Edgar Allan Poe (Os crimes da Rua Morgue) e Balzac, com vários contos e romances. E não vejo quem possa afirmar, categoricamente, que eles não são literatura... O gênero policial é só um subgênero temático do gênero narrativo, subgênero este do gênero épico. Um modo de nomear capítulos em compêndios de Teoria da Literatura e de organizar estantes em livrarias.
quinta-feira, 2 de julho de 2009
PARENTESCO
Que a arte se alimenta da arte, não há dúvida. No romance, no conto ou na poesia (e mesmo no cinema ou na pintura), estamos sempre criando de um marco primeiro, pessoal, e do que já conhecemos, aquilo que T. S. Eliot chamava "tradição". Se o artista o faz consciente ou inconscientemente, não importa. Está ali a referência, ou citação, ou intertextualidade, o que nos permite, lendo um texto, lembrarmo-nos fortemente de outro. Foi o que me ocorreu quando li pela primeira vez o poema Alouette, abaixo. Foi como se lesse duplamente, ou imbricadamente, dois poemas, dois poetas: Gelman e Rilke. Sem me prontificar a fazer nenhum juízo de valor, mesmo porque prefiro saboreá-los a julgá-los, penso que os dois textos guardam certo parentesco: são primos distantes de uma mesma verdade, de um mesmo assombro. O que houve entre eles não nos interessa.ALOUETTE
Bendita a mão que me cortasse os olhos
para que eu não visse nada além de ti.
E se me cortassem a língua, seu silêncio
cantaria pleno de ti.
E se me cortassem as mãos, sua memória
saberia acariciar-te.
E se me cortassem as pernas, seu vazio
me levaria a ti.
E se depois me matassem
ainda restaria toda a minha dor de ti.
JUAN GELMAN, poeta argentino nascido em 1930 e aqui traduzido por Eric Nepomuceno. Do volume Amor que serena, termina? (Rio de Janeiro: Record, 2001).
Apaga-me os olhos: eu posso ver-te!
Fecha-me os ouvidos: eu posso ouvir-te!
E sem pés posso ir ao teu encontro
e mesmo sem boca eu posso chamar-te!
Arranca-me os braços, e eu te seguro
com o coração, como com minhas mãos.
Pára meu coração, e em mim o cérebro
há de pulsar; e se puseres fogo
em meu cérebro, eu te trarei no sangue.
RAINER MARIA RILKE (1875-1926). Poeta tcheco de expressão alemã, traduzido aqui por Geir Campos, para a segunda edição de O livro das horas (Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1994).
Imagem: Irène Jacob, em A fraternidade é vermelha (1994), de Krzysztof Kieslowski.
domingo, 28 de junho de 2009
PERSONAGENS
Nem sempre conseguimos, racionalmente, afirmar de onde veio um personagem, como ele nasceu, criou vida, carne, um fundo psicológico, sentimentos, emoções. E ainda mais um personagem forte, vivo, profundo, que qualquer leitor, porque fascinado – esquecido de que em literatura nada é real, tudo é ficção, mesmo a História –, jura que existiu e que até o tocou, apertou sua mão, um dia, em tal situação, tal lugar – episódio para o qual é capaz de encontrar testemunhas as mais fiéis, dispostas a rogar de joelhos que o fato é verdade. Às vezes, para o grande escritor é melhor lançar mão da metáfora e encerrar o assunto, como fez William Faulkner, segundo testemunho de Irving Howe: “A única vez em que encontrei William Faulkner, perguntei-lhe como ele havia criado o truculento personagem negro Lucas Beauchamp. ‘Eu o vi’, respondeu Faulkner, ‘andando por cima de minha máquina de escrever’”. Beauchamp é o protagonista de Intruder in the dust, traduzido no Brasil com o título O intruso (São Paulo: Siciliano, 1995). Quanto à citação de Howe, está em Madame Bovary, c’est moi!, de André Bernard, um excelente e bem-humorado livro sobre a origem de vários personagens da literatura estadunidense e européia.
quarta-feira, 24 de junho de 2009
VÁ E VEJA, 3
1) Oi, Mayrant, como te escrevi anteriormente, belíssimo filme! Amei Um dia muito especial. O diálogo com Encontros e Desencontros é nítido. Enquanto todos estão preocupados com o encontro de Hitler e Mussolini, Antonieta e Gabriele (deslocados daquele episódio) se encontram e descobrem que, para além de suas rotinas, vivem angústias em comum. Ele, intelectual, homossexual, desempregado e solitário. Ela, mãe de seis filhos, casada e, apesar disso, também solitária. A cena em que ela bebe o resto do café do marido e dos filhos, porque está cansada demais para preparar seu próprio café, foi, para mim, muito forte. Mostra bem a atmosfera da vida que ela vivia. E a cena em que ele implora para que conversem com ele ao telefone foi igualmente tocante. Mas, a partir do momento em que se conhecem, eles descobrem que existe uma outra opção. Ela, por exemplo, percebe que seu mundo pode ser maior do que a sua cozinha. Apesar disso, Gabriele não muda sua opção sexual, tampouco Antonieta muda a sua vida. Assim como em Encontros e Desencontros, estavam inconformados com a vida que levavam, porém estagnados, presos a ela. Tiveram um relacionamento físico, mas isso não mudou a opção de Gabriele, nem fez com que Antonieta tomasse uma decisão mais definitiva. Viveram um dia muito especial e voltaram ao que eram, voltaram às suas realidades, às suas rotinas. Como o pássaro que, de certa forma, os aproximou (que gozou momentos de liberdade e voltou para a sua gaiola), assim aconteceu com Gabriele e Antonieta. No entanto, percebemos que, se não houve uma mudança objetiva na vida deles, por outro lado não continuaram os mesmos. Quando Antonieta está jantando com o marido e os filhos, ela não é mais a mesma pessoa daquela manhã. O filho comenta sobre as fotos dos jornais, que ela recorta para montar um álbum, mas notamos que essa atividade para ela não terá mais a mesma valia. Algo mudou. Assim como algo mudou em mim. Não saí a mesma ao terminar de assistir este filme. Um filme delicado, sensível, tocante mesmo. Fiquei curiosa em assistir outros filmes de Ettore Scola. Aprecio muito os filmes italianos. Obrigada por este presente, Mayrant. Grande abraço, Lidi.2) Oi, Lidiane, acabei de ler seu comentário a Um dia muito especial. Você demonstra o quanto gostou do filme, e o quanto ele a "abalou". É, de fato, um filme excepcional. Um filme para assistirmos sempre. Uma aula de cinema. De vida. Um acúmulo de sentimentos estranhos, humanos e ilusórios. Com um detalhe: os dois personagens, solitários naquele conjunto residencial vazio como no fim do mundo, acompanhados de uma única ave, são como o último casal sobre a Terra... E a ave os une como que para a procriação de um novo mundo, mais justo, sensível e sem preconceitos, sem guerra, sem violência. Um símbolo, uma utopia, claro, já que eles vão continuar o que são, embora, paradoxalmente, transformados. Era isso, abraço, M.
sábado, 20 de junho de 2009
POEMA
Estive cansado ontem quase todo o dia.
O corre-corre foi intenso mesmo quando estive parado.
Não pude apreciar livros nas livrarias, nem pensei em olhar
[a programação de cinema.
Não brinquei com meu cão, mal beijei minha esposa.
Tomei café sem atentar para seu gosto, seu calor.
Li duas ou três páginas de Scliar sem a devida atenção.
Não procurei estrelas no céu,
Não pensei em ninguém, em nenhum amigo ou parente,
Não pensei nem em mim mesmo.
Passei o dia ignorando existências, dores, sentimentos, artes, combates.
Passei o dia com homens e mulheres sem que eu soubesse, nem eles,
Que o amor é provável, e que a amizade é possível,
E mesmo um acordo entre inimigos...
Passei o dia rabiscando e apagando, com o corpo,
O tempo e o espaço à minha volta
E tentando me convencer de que estou certo, todos estamos certos,
Que este é o trilho, e que vamos por ele para o único destino conhecido.
Sim, vamos, e é isso que implica em vazio:
O deste sábado, o de ontem e o de amanhã, que é domingo.
Que alguém nos salve disso a que chamam de... Não, não vou dizer!
Seria nomear o inominável.
Prefiro que o leitor preencha o que chamo de− com as palavras de sua
Li duas ou três páginas de Scliar sem a devida atenção.
Não procurei estrelas no céu,
Não pensei em ninguém, em nenhum amigo ou parente,
Não pensei nem em mim mesmo.
Passei o dia ignorando existências, dores, sentimentos, artes, combates.
Passei o dia com homens e mulheres sem que eu soubesse, nem eles,
Que o amor é provável, e que a amizade é possível,
E mesmo um acordo entre inimigos...
Passei o dia rabiscando e apagando, com o corpo,
O tempo e o espaço à minha volta
E tentando me convencer de que estou certo, todos estamos certos,
Que este é o trilho, e que vamos por ele para o único destino conhecido.
Sim, vamos, e é isso que implica em vazio:
O deste sábado, o de ontem e o de amanhã, que é domingo.
Que alguém nos salve disso a que chamam de... Não, não vou dizer!
Seria nomear o inominável.
Prefiro que o leitor preencha o que chamo de− com as palavras de sua
[própria experiência.
Afinal, por que outro motivo leríamos poesia?
Por que outro motivo nos daríamos a chance de brincar de roda
Afinal, por que outro motivo leríamos poesia?
Por que outro motivo nos daríamos a chance de brincar de roda
[entre as palavras,
De cegos entre metáforas?
De cegos entre metáforas?
MAYRANT GALLO. De Nem mesmo os passarinhos tristes, inédito.
Foto: autoria de Dulciene Anjos.
quarta-feira, 17 de junho de 2009
RECEIO DO OUTRO
1Certa vez perguntei a um especialista em filmes de bangue-bangue sobre um filme a que eu tinha assistido na infância e do qual gostara muito: Céu amarelo. Sem hesitar, o sujeito me garantiu que o filme não existia:
“Conheço todos os filmes de faroeste e nunca ouvi falar desse...”
A resistência veemente do sujeito me obrigou a procurar, por mim mesmo, alguns livros sobre o assunto, nos quais eu pudesse encontrar qualquer referência ao tal filme. Não foi difícil: o primeiro que abri evidenciou que eu estava certo. Céu amarelo não só existia como era considerado um clássico do gênero, dirigido por um de seus mestres incontestáveis: William Wellman.
2
Um episódio inverso, creio, me fez tomar gosto pelo conhecimento e buscá-lo, embora sem desespero: quando adolescente eu lia muito e sempre estava com um livro diferente enfiado entre os cadernos e livros de escola. Então, uma tarde, um garoto de outra turma e que eu só conhecia de vista me viu com um romance de Pasolini.
“Pasolini? O cineasta?”, perguntou, com um indisfarçável tom de admiração.
Naquela época eu não sabia quem era Pasolini e só havia apanhado o livro na biblioteca pública por causa do título, atraído pelo mistério da frase: A hora depois do sonho. No entanto, daí por diante não me deixei mais apanhar ou surpreender. Pasolini logo se tornou para mim um cineasta dos mais freqüentes e instigantes. E foram bem poucas as vezes, desde então, que alguém me falou de algum artista importante sem que eu o conhecesse, ao menos de referência.
3
Examinando superficialmente os dois episódios, me dou conta de que ambos representam modelos de professor. O primeiro é aquele que, do alto do seu conhecimento, desdenha o que não conhece; e o segundo, aquele que, mesmo ciente de que sabe, compreende que pode saber ainda mais, e que o conhecimento nos chega pelas mais estranhas vias: pela ação inconsciente de um neófito, por exemplo. Os dois, no entanto, despertaram em mim a fúria pelo saber, e a eles sou grato, pois, a um só tempo, me tiraram do embotamento e me fizeram ver que não somos senão o receio do outro ou o seu fantasma.
Imagem: cartaz do filme Johnny Guitar (1954), de Nicholas Ray. Um faroeste feminista cultuado por cineastas como Truffaut, Scorsese e Almodóvar. A canção homônima que embala a trama é de Peggy Lee, interpretada por ela mesma, que diz: "Jamais houve um homem como Johnny Guitar".
terça-feira, 16 de junho de 2009
NÃO HESITEM!
Clique em cima da imagem, para ler o texto do convite.
Responda e ganhe um exemplar do livro:
1) O que aconteceu com o ator principal de Vá e veja, de Klimov, depois de terminadas as filmagens?
2) Que romances de Dino Buzzati foram adaptados para o cinema?
3) Que livro de Herberto Sales foi considerado por Guimarães Rosa um dos melhores romances da literatura brasileira?
4) Que romance de José J. Veiga satiriza a Ditadura Militar Brasileira? Em que ano ele foi publicado?
5) Que composição da música erudita é considerada o marco da arte moderna? Quem a compôs?
6) Em que filme Monica Belucci aparece fazendo uma ponta tão pequena, que não mereceu nem crédito?
7) Que escritor famoso faz uma ponta em A noite americana, de Truffaut?
domingo, 14 de junho de 2009
DOIS POEMAS
REMOSDe canoa, vinha visitá-la
Todos os domingos à tarde
E juntos, lado a lado,
Se beijavam.
Todos os domingos à tarde
E juntos, lado a lado,
Se beijavam.
Eram namorados e um dia seriam casados.
A ilha invejava o idílio.
O idílio envolvia a ilha.
A ilha invejava o idílio.
O idílio envolvia a ilha.
Um dia, depois de anos,
Ele não veio.
Ele não veio.
Acharam só a canoa vazia.
Sem os remos.
Sem os remos.
O TEMPO
Onde ontem uma barbearia
Hoje uma lanchonete
Se os tempos são unos e simultâneos
Enquanto se come
Cabelos flutuam
Comem-se sanduíches
E mechas.
Onde ontem uma barbearia
Hoje uma lanchonete
Se os tempos são unos e simultâneos
Enquanto se come
Cabelos flutuam
Comem-se sanduíches
E mechas.
MAYRANT GALLO. De OS PRAZERES E OS CRIMES, inédito. A bela foto acima é de autoria da fotógrafa NATHY SILVA.
domingo, 7 de junho de 2009
ESTÉTICA VIOLENTA
Não há explicação quanto ao que nos faz gostar de um poema um conto um romance um filme. Quantas vezes li Felicidade, de Marques Rebelo, bem brasileiro! Quantas vezes a primeira página de Machado, o Casmurro. E mais ainda a frase “que eu conheço de vista e de chapéu”. Quantas vezes Antonioni, Camus, Örkény! Quantas vezes os exercícios de Borges. Exercícios mentais, históricos, de exibição do intelecto para o gozo dos olhos. Quantas vezes, em Tóquio violenta, de Suzuki, esta cena: um carro, bandidos, uma mulher bonita que surge na calçada, um deles que a chama, e ela que se volta – e assim a imagem, num close inesperado e estonteante, revela-nos seus olhos, sua boca e nos antecipa toda a estética do filme, pois a surpresa da moça é a nossa. Imagem: close de Tóquio violenta (1966), de Seijun Suzuki.
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