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A outra edição de Amy Foster no Brasil é esta, inclusa no volume Tufão e outras histórias (Typhoon and outher stories), que reúne, além de Amy Foster, os contos Tufão e Amanhã. Nascido na Polônia em 1857, com o nome Józef Teodor Konrad Naleck Korzaeniowski, Conrad acabou por se tornar um dos maiores prosadores de língua inglesa e um autor cultuado sobretudo pelos escritores. Tinha uma predileção por personagens solitários e amargurados, anti-heróis que, como ele, Conrad, tinham que lutar por seu lugar no mundo. Com seu estilo descritivo e inigualável, dado a incursões psicológicas e nuances de primitivismo, articulou romances ora densos ora movimentados que influenciaram inúmeros romancistas do século XX, na Inglaterra e no mundo, entre os quais Faulkner, O'Hara e Lowry.
Um náufrago chega às praias de Colebrook, na costa da Inglaterra. Como não fala sequer uma palavra em inglês, pois nasceu num inominado país do Leste europeu, de onde partiu em busca de uma vida melhor na América, é considerado um maluco e recolhido ao depósito de madeira do Sr. Smith, cuja mulher, só de ver o estranho, ficou histérica. Mais tarde, já relativamente adaptado ao lugar, e namorando Amy Foster, o homem tenta levar uma vida normal, mas é impossível: não fala inglês, que não consegue aprender, canta nas tabernas músicas que ninguém conhece, dança de maneira insólita (batendo os tornozelos, estalando os dedos, acocorando-se e esticando uma das pernas), e, por isso, "foi posto para fora com violência; ganhou um olho preto". Quando bem mais tarde, já casado com Amy (outra estranha, e não é por outro motivo que eles se casam, embora ela fale inglês, seja do lugar) e pai de um filho, ele fica deprimido e melancólico a ponto de adoecer, acham que ele está maquinando algo, que sua loucura chegou a outro estágio, talvez mais perigoso... Metáfora (ou alegoria) da incapacidade de se lidar com as diferenças, com o outro, este é um dos melhores e mais incisivos contos longos de Joseph Conrad (1857-1924) sobre o etnocentrismo: "Ah, ele era diferente: um coração inocente e cheio de uma boa vontade que ninguém queria, esse náufrago, que, igual a um homem transplantado para outro planeta, estava separado de seu passado por um espaço imenso, e de seu futuro, por uma imensa ignorância. Sua fala rápida, vigorosa, positivamente chocava todo mundo. 'Um demônio nervoso', era como o qualificavam". Nesta edição de 2007, pela Revan (RJ), afirma-se na orelha que esta obra de Conrad era até então inédita no Brasil. Não era. Foi publicada antes, em 1985, pela L&PM, do RS, no volume original intitulado Tufão e outras histórias, em tradução de Albino Poli Jr. Amy Foster é um grande texto de Conrad, que chega a pelo menos duas traduções de qualidade no Brasil e que deve ser lido por todas as pessoas, afinal de contas, quando não somos os outros, somos os mesmos, e vice-versa. E vale lembrar que, quando perguntaram ao francês Paul Claudel que obras de Conrad deveriam ser lidas, ele respondeu, sem hesitar: "Todas!" Ênfase que, nas palavras de seu compatriota André Gide, atinge o paroxismo: "Entre meus maiores, eu não amava nem reconhecia ninguém mais do que ele". Joseph Conrad.
Amanhã, a convite da Fundação Pedro Calmon, para o seminário A atualidade de Jorge Amado, estará entre nós, na LDM Livraria Multicampi, às 17 horas, o cartunista paulista Spacca, autor da recente adaptação de Jubiabá para os quadrinhos.
Uma trama que é só um pretexto para uma aventura, e uma revelação. O mais recente romance do belga Jean-Pierre Toussaint elege a narrativa oriental como tom e faz da linguagem um meio para captar cores, formas, odores, sensações, espaços, épocas, objetos, atmosferas perdidas ou que vão se perder. Ao fim, descobrimos que tudo, da primeira à última palavra, do gesto mais brusco ao olhar mais sutil, forma uma aventura que vai obrigar o protagonista a tomar uma decisão, responder à pergunta: "Será que eu acabaria tudo com Marie?" Ora, ele já respondeu que sim, na segunda linha do romance: "No verão anterior à nossa 'separação', tinha passado algumas semanas em Xangai (...)". Só não sabemos como. O romance é este 'como', e passa por Xangai, Pequim e pela ilha de Elba, onde tudo se decide, em braçadas marinhas de desespero, pavor, amor e amizade. Um périplo no qual a história pouco importa. O fluxo da vida não permite organização com começo, meio e fim precisos. Apenas experiências, que ora faltam ora sobram, e com as quais, se a vida não é clara, benéfica, ao menos torna-se suportável.
Finalmente, com 46 anos de atraso, chega ao Brasil O planeta dos macacos, de Pierre Boulle, romance francês de ficção científica que inspirou o filme homônimo, de 1967. Adeptos, cultores e outros aproveitem! A edição, pela Agir, integra a coleção Pocket Ouro, série Grandes Filmes, a preço relativamente módico. Quem não se lembra da cena em que Taylor, a cavalo, com a bela Nova na garupa, na praia, avista de repente a Estátua da Liberdade tombada e destroçada? Segundo Nelson de Oliveira: "Um clássico!"
Não posso analisar a produção cinematográfica atual, pois me falta suficiente conhecimento técnico e estético, mas posso expor minhas impressões. O que tenho notado é o mundo cinematográfico dividido em dois pólos: cinema de entretenimento de um lado e cinema de proposta de outro. Já não podemos usar a expressão cinema de arte, pois este conceito mudou muito e reúne hoje tanto a produção independente quanto a de países exóticos, sem muita tradição em cinema. Então prefiro esta expressão, tirada de Umberto Eco: cinema de proposta. Um cinema que quebre clichês, introduza novos assuntos, arrisque novas formas narrativas, dialogue com os clássicos, desloque nosso olhar para outros ângulos, subverta os gêneros, nos diga que a realidade é mais complexa do que nos quer fazer ver Hollywood ou a Globo Filmes. Que nos mostre, metaforicamente, a verdadeira face do mundo. Exemplos: Adeus Lênin, Irreversível, A passagem (Stay), 21 Gramas, O último beijo, Corra Lola corra, A janela da frente, Domésticas, O invasor, Nina, Cidade dos sonhos, 2046, Amor à flor da pele, Agora ou nunca, As luzes de um verão, Entre quatro paredes, O amigo do defunto, A isca, Caché, Os sonhadores, A vida dos outros, Encontros e desencontros, Ninho vazio, O nome dela é Carla, Vocês, os vivos, Import export, Quando um estranho chama, Reconstrução de um amor, Respiro, Alila, Chuva de verão, Lantana, Mar aberto etc.
"A contragosto acabou por ceder à tentação de espiar pela fechadura e, quase de joelhos, apoiou a mão na moldura da porta.
FÉRIAS
Apesar da tentativa de embargo, a Portal Stalker está a caminho. A mensagem de hoje de manhã do Nelson de Oliveira, editor da revista, não deixa dúvida:
5. O SONHO
Em seu livro intitulado O caderno vermelho, o escritor Paul Auster arrola histórias supostamente reais de coincidências e estranhas coincidências. Uma das mais curiosas é a de um sujeito, amigo de Auster, que procurava um determinado livro, para ele raro. Depois de muito percorrer sebos e livrarias e de consultar catálogos, sem sucesso algum, e tendo praticamente desistido da busca, ele estava um dia perambulando por Nova Iorque, quando avistou uma jovem de pé junto a uma balaustrada de mármore, lendo exatamente o livro que ele procurava. Embora espantado, e ainda mais envergonhado por ter de abordar uma pessoa estranha, ele disse:
Quando ouço a palavra cultura (e é só o que ouvimos atualmente, em detrimento de tudo o mais), penso nesta precisa definição do cineasta francês Jean-Luc Godard: "Cultura é regra, arte é exceção; e é da natureza da regra eliminar a exceção".
Livros como A lua na sarjeta, O homem que via o trem passar, O destino bate à sua porta, O longo adeus e Fuga para o inferno são policiais porque assim foram rotulados quando de sua primeira edição. Mas, se comparados ao romance O estrangeiro, ao conto A cartomante, a São Bernardo, a Crime e castigo, a Crônica de uma morte anunciada ou a Noite, de Érico Veríssimo, não há diferença alguma. Todos são literatura porque são reflexão sobre a vida e o indivíduo. E, se alguém me disser que o que separa o gênero policial da chamada alta literatura é a linguagem, digo que ser límpido e direto também é uma arte, e que, assim, James M. Cain e Graciliano Ramos se equivalem, pois são predominantemente secos e ácidos, assim como Simenon e Dostoiévski são psicológicos, e Goodis e Camus, poéticos. Mas, se ainda assim persistir a dúvida, lembro que dois dos inventores do gênero policial são nada mais nada menos que Edgar Allan Poe (Os crimes da Rua Morgue) e Balzac, com vários contos e romances. E não vejo quem possa afirmar, categoricamente, que eles não são literatura... O gênero policial é só um subgênero temático do gênero narrativo, subgênero este do gênero épico. Um modo de nomear capítulos em compêndios de Teoria da Literatura e de organizar estantes em livrarias.
Que a arte se alimenta da arte, não há dúvida. No romance, no conto ou na poesia (e mesmo no cinema ou na pintura), estamos sempre criando de um marco primeiro, pessoal, e do que já conhecemos, aquilo que T. S. Eliot chamava "tradição". Se o artista o faz consciente ou inconscientemente, não importa. Está ali a referência, ou citação, ou intertextualidade, o que nos permite, lendo um texto, lembrarmo-nos fortemente de outro. Foi o que me ocorreu quando li pela primeira vez o poema Alouette, abaixo. Foi como se lesse duplamente, ou imbricadamente, dois poemas, dois poetas: Gelman e Rilke. Sem me prontificar a fazer nenhum juízo de valor, mesmo porque prefiro saboreá-los a julgá-los, penso que os dois textos guardam certo parentesco: são primos distantes de uma mesma verdade, de um mesmo assombro. O que houve entre eles não nos interessa.
Nem sempre conseguimos, racionalmente, afirmar de onde veio um personagem, como ele nasceu, criou vida, carne, um fundo psicológico, sentimentos, emoções. E ainda mais um personagem forte, vivo, profundo, que qualquer leitor, porque fascinado – esquecido de que em literatura nada é real, tudo é ficção, mesmo a História –, jura que existiu e que até o tocou, apertou sua mão, um dia, em tal situação, tal lugar – episódio para o qual é capaz de encontrar testemunhas as mais fiéis, dispostas a rogar de joelhos que o fato é verdade. Às vezes, para o grande escritor é melhor lançar mão da metáfora e encerrar o assunto, como fez William Faulkner, segundo testemunho de Irving Howe: “A única vez em que encontrei William Faulkner, perguntei-lhe como ele havia criado o truculento personagem negro Lucas Beauchamp. ‘Eu o vi’, respondeu Faulkner, ‘andando por cima de minha máquina de escrever’”. Beauchamp é o protagonista de Intruder in the dust, traduzido no Brasil com o título O intruso (São Paulo: Siciliano, 1995). Quanto à citação de Howe, está em Madame Bovary, c’est moi!, de André Bernard, um excelente e bem-humorado livro sobre a origem de vários personagens da literatura estadunidense e européia.
1) Oi, Mayrant, como te escrevi anteriormente, belíssimo filme! Amei Um dia muito especial. O diálogo com Encontros e Desencontros é nítido. Enquanto todos estão preocupados com o encontro de Hitler e Mussolini, Antonieta e Gabriele (deslocados daquele episódio) se encontram e descobrem que, para além de suas rotinas, vivem angústias em comum. Ele, intelectual, homossexual, desempregado e solitário. Ela, mãe de seis filhos, casada e, apesar disso, também solitária. A cena em que ela bebe o resto do café do marido e dos filhos, porque está cansada demais para preparar seu próprio café, foi, para mim, muito forte. Mostra bem a atmosfera da vida que ela vivia. E a cena em que ele implora para que conversem com ele ao telefone foi igualmente tocante. Mas, a partir do momento em que se conhecem, eles descobrem que existe uma outra opção. Ela, por exemplo, percebe que seu mundo pode ser maior do que a sua cozinha. Apesar disso, Gabriele não muda sua opção sexual, tampouco Antonieta muda a sua vida. Assim como em Encontros e Desencontros, estavam inconformados com a vida que levavam, porém estagnados, presos a ela. Tiveram um relacionamento físico, mas isso não mudou a opção de Gabriele, nem fez com que Antonieta tomasse uma decisão mais definitiva. Viveram um dia muito especial e voltaram ao que eram, voltaram às suas realidades, às suas rotinas. Como o pássaro que, de certa forma, os aproximou (que gozou momentos de liberdade e voltou para a sua gaiola), assim aconteceu com Gabriele e Antonieta. No entanto, percebemos que, se não houve uma mudança objetiva na vida deles, por outro lado não continuaram os mesmos. Quando Antonieta está jantando com o marido e os filhos, ela não é mais a mesma pessoa daquela manhã. O filho comenta sobre as fotos dos jornais, que ela recorta para montar um álbum, mas notamos que essa atividade para ela não terá mais a mesma valia. Algo mudou. Assim como algo mudou em mim. Não saí a mesma ao terminar de assistir este filme. Um filme delicado, sensível, tocante mesmo. Fiquei curiosa em assistir outros filmes de Ettore Scola. Aprecio muito os filmes italianos. Obrigada por este presente, Mayrant. Grande abraço, Lidi.
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REMOS
Não há explicação quanto ao que nos faz gostar de um poema um conto um romance um filme. Quantas vezes li Felicidade, de Marques Rebelo, bem brasileiro! Quantas vezes a primeira página de Machado, o Casmurro. E mais ainda a frase “que eu conheço de vista e de chapéu”. Quantas vezes Antonioni, Camus, Örkény! Quantas vezes os exercícios de Borges. Exercícios mentais, históricos, de exibição do intelecto para o gozo dos olhos. Quantas vezes, em Tóquio violenta, de Suzuki, esta cena: um carro, bandidos, uma mulher bonita que surge na calçada, um deles que a chama, e ela que se volta – e assim a imagem, num close inesperado e estonteante, revela-nos seus olhos, sua boca e nos antecipa toda a estética do filme, pois a surpresa da moça é a nossa.
"A Terra é o berço da humanidade, mas não se vive no berço eternamente." (Tsiolkovsky)
O HOMEM SOLITÁRIO