"Eu respirava naquelas salas, como um incenso, esse cheiro de velha biblioteca que vale todos os perfumes do mundo." Antoine de Saint-Exupéry

terça-feira, 21 de julho de 2009

STALKER A CAMINHO!

Apesar da tentativa de embargo, a Portal Stalker está a caminho. A mensagem de hoje de manhã do Nelson de Oliveira, editor da revista, não deixa dúvida:

"Amigos, tentaram impedir que eu enviasse, pelo correio, meus exemplares do Portal Stalker. Fui até detido pra interrogatório... Mas consegui passar os envelopes pra Tereza, minha mulher, que já despachou tudo hoje de manhã. Vitória!"

PORTAL STALKER. Sua revista de ficção científica.

domingo, 19 de julho de 2009

AS AVENTURAS DE NICOLAU & RICARDO: DETETIVES

5. O SONHO

Nicolau não entendia por que tanta celeuma em torno do quê ou de quem matou Michael Jackson. Era óbvio, e foi isso que ele tentou expor a Ricardo, sem sacrificar o humor, naquele bar cheio, e com os presentes, todos, atentos ao blablablá da tevê:
“O cara almoçou, comeu algo pesado – uma bela feijoada, digamos – e depois foi dormir. Sonhou que tinha voltado a ser negro e, de susto, o coração parou”.
Ricardo riu, e Nicolau lhe fez coro.
Quando pararam, tinham sobre si algumas dezenas de olhos, cujo brilho multiplicava-se em garfos e facas.


Em breve, mais um episódio da segunda temporada. Imagem: cena do filme Infância roubada (2005), de Gavin Hood, baseado num romance de Athol Fugard.

segunda-feira, 13 de julho de 2009

O LIVRO QUE PROCURAMOS

Em seu livro intitulado O caderno vermelho, o escritor Paul Auster arrola histórias supostamente reais de coincidências e estranhas coincidências. Uma das mais curiosas é a de um sujeito, amigo de Auster, que procurava um determinado livro, para ele raro. Depois de muito percorrer sebos e livrarias e de consultar catálogos, sem sucesso algum, e tendo praticamente desistido da busca, ele estava um dia perambulando por Nova Iorque, quando avistou uma jovem de pé junto a uma balaustrada de mármore, lendo exatamente o livro que ele procurava. Embora espantado, e ainda mais envergonhado por ter de abordar uma pessoa estranha, ele disse:
“Tenho procurado este livro por toda parte...”
“É maravilhoso. Acabei de ler neste instante”, respondeu a moça.
“Sabe onde posso achar outro exemplar?”, perguntou o amigo de Auster. “Isso é muito importante para mim.”
“Este aqui é para você”, disse a jovem, com a maior naturalidade.
“Mas ele é seu”, retrucou o homem.
“Ele 'era' meu, mas agora eu já acabei de ler. Eu vim aqui hoje para entregá-lo a você.”
Um caso sobrenatural, fantástico, ou um jogo da moça, aproveitando a insólita situação? Quem sabe? E, se souber, guarde o conhecimento para si, em favor da ambiguidade.


Fonte: AUSTER, Paul. O caderno vermelho. São Paulo: Companhia das Letras, 2009. p. 26.
Foto: Nathy Silva.

sexta-feira, 10 de julho de 2009

ARTE VERSUS CULTURA

Quando ouço a palavra cultura (e é só o que ouvimos atualmente, em detrimento de tudo o mais), penso nesta precisa definição do cineasta francês Jean-Luc Godard: "Cultura é regra, arte é exceção; e é da natureza da regra eliminar a exceção".

Imagem: cartaz de Pierrot le fou (1965), de Jean-Luc Godard.

terça-feira, 7 de julho de 2009

O POLICIAL

Livros como A lua na sarjeta, O homem que via o trem passar, O destino bate à sua porta, O longo adeus e Fuga para o inferno são policiais porque assim foram rotulados quando de sua primeira edição. Mas, se comparados ao romance O estrangeiro, ao conto A cartomante, a São Bernardo, a Crime e castigo, a Crônica de uma morte anunciada ou a Noite, de Érico Veríssimo, não há diferença alguma. Todos são literatura porque são reflexão sobre a vida e o indivíduo. E, se alguém me disser que o que separa o gênero policial da chamada alta literatura é a linguagem, digo que ser límpido e direto também é uma arte, e que, assim, James M. Cain e Graciliano Ramos se equivalem, pois são predominantemente secos e ácidos, assim como Simenon e Dostoiévski são psicológicos, e Goodis e Camus, poéticos. Mas, se ainda assim persistir a dúvida, lembro que dois dos inventores do gênero policial são nada mais nada menos que Edgar Allan Poe (Os crimes da Rua Morgue) e Balzac, com vários contos e romances. E não vejo quem possa afirmar, categoricamente, que eles não são literatura... O gênero policial é só um subgênero temático do gênero narrativo, subgênero este do gênero épico. Um modo de nomear capítulos em compêndios de Teoria da Literatura e de organizar estantes em livrarias.

quinta-feira, 2 de julho de 2009

PARENTESCO

Que a arte se alimenta da arte, não há dúvida. No romance, no conto ou na poesia (e mesmo no cinema ou na pintura), estamos sempre criando de um marco primeiro, pessoal, e do que já conhecemos, aquilo que T. S. Eliot chamava "tradição". Se o artista o faz consciente ou inconscientemente, não importa. Está ali a referência, ou citação, ou intertextualidade, o que nos permite, lendo um texto, lembrarmo-nos fortemente de outro. Foi o que me ocorreu quando li pela primeira vez o poema Alouette, abaixo. Foi como se lesse duplamente, ou imbricadamente, dois poemas, dois poetas: Gelman e Rilke. Sem me prontificar a fazer nenhum juízo de valor, mesmo porque prefiro saboreá-los a julgá-los, penso que os dois textos guardam certo parentesco: são primos distantes de uma mesma verdade, de um mesmo assombro. O que houve entre eles não nos interessa.

ALOUETTE

Bendita a mão que me cortasse os olhos
para que eu não visse nada além de ti.

E se me cortassem a língua, seu silêncio
cantaria pleno de ti.

E se me cortassem as mãos, sua memória
saberia acariciar-te.

E se me cortassem as pernas, seu vazio
me levaria a ti.

E se depois me matassem
ainda restaria toda a minha dor de ti.

JUAN GELMAN, poeta argentino nascido em 1930 e aqui traduzido por Eric Nepomuceno. Do volume Amor que serena, termina? (Rio de Janeiro: Record, 2001).

Apaga-me os olhos: eu posso ver-te!
Fecha-me os ouvidos: eu posso ouvir-te!
E sem pés posso ir ao teu encontro
e mesmo sem boca eu posso chamar-te!
Arranca-me os braços, e eu te seguro
com o coração, como com minhas mãos.
Pára meu coração, e em mim o cérebro
há de pulsar; e se puseres fogo
em meu cérebro, eu te trarei no sangue.


RAINER MARIA RILKE (1875-1926). Poeta tcheco de expressão alemã, traduzido aqui por Geir Campos, para a segunda edição de O livro das horas (Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1994).

Imagem: Irène Jacob, em A fraternidade é vermelha (1994), de Krzysztof Kieslowski.

domingo, 28 de junho de 2009

PERSONAGENS

Nem sempre conseguimos, racionalmente, afirmar de onde veio um personagem, como ele nasceu, criou vida, carne, um fundo psicológico, sentimentos, emoções. E ainda mais um personagem forte, vivo, profundo, que qualquer leitor, porque fascinado – esquecido de que em literatura nada é real, tudo é ficção, mesmo a História –, jura que existiu e que até o tocou, apertou sua mão, um dia, em tal situação, tal lugar – episódio para o qual é capaz de encontrar testemunhas as mais fiéis, dispostas a rogar de joelhos que o fato é verdade. Às vezes, para o grande escritor é melhor lançar mão da metáfora e encerrar o assunto, como fez William Faulkner, segundo testemunho de Irving Howe: “A única vez em que encontrei William Faulkner, perguntei-lhe como ele havia criado o truculento personagem negro Lucas Beauchamp. ‘Eu o vi’, respondeu Faulkner, ‘andando por cima de minha máquina de escrever’”. Beauchamp é o protagonista de Intruder in the dust, traduzido no Brasil com o título O intruso (São Paulo: Siciliano, 1995). Quanto à citação de Howe, está em Madame Bovary, c’est moi!, de André Bernard, um excelente e bem-humorado livro sobre a origem de vários personagens da literatura estadunidense e européia.

quarta-feira, 24 de junho de 2009

VÁ E VEJA, 3

1) Oi, Mayrant, como te escrevi anteriormente, belíssimo filme! Amei Um dia muito especial. O diálogo com Encontros e Desencontros é nítido. Enquanto todos estão preocupados com o encontro de Hitler e Mussolini, Antonieta e Gabriele (deslocados daquele episódio) se encontram e descobrem que, para além de suas rotinas, vivem angústias em comum. Ele, intelectual, homossexual, desempregado e solitário. Ela, mãe de seis filhos, casada e, apesar disso, também solitária. A cena em que ela bebe o resto do café do marido e dos filhos, porque está cansada demais para preparar seu próprio café, foi, para mim, muito forte. Mostra bem a atmosfera da vida que ela vivia. E a cena em que ele implora para que conversem com ele ao telefone foi igualmente tocante. Mas, a partir do momento em que se conhecem, eles descobrem que existe uma outra opção. Ela, por exemplo, percebe que seu mundo pode ser maior do que a sua cozinha. Apesar disso, Gabriele não muda sua opção sexual, tampouco Antonieta muda a sua vida. Assim como em Encontros e Desencontros, estavam inconformados com a vida que levavam, porém estagnados, presos a ela. Tiveram um relacionamento físico, mas isso não mudou a opção de Gabriele, nem fez com que Antonieta tomasse uma decisão mais definitiva. Viveram um dia muito especial e voltaram ao que eram, voltaram às suas realidades, às suas rotinas. Como o pássaro que, de certa forma, os aproximou (que gozou momentos de liberdade e voltou para a sua gaiola), assim aconteceu com Gabriele e Antonieta. No entanto, percebemos que, se não houve uma mudança objetiva na vida deles, por outro lado não continuaram os mesmos. Quando Antonieta está jantando com o marido e os filhos, ela não é mais a mesma pessoa daquela manhã. O filho comenta sobre as fotos dos jornais, que ela recorta para montar um álbum, mas notamos que essa atividade para ela não terá mais a mesma valia. Algo mudou. Assim como algo mudou em mim. Não saí a mesma ao terminar de assistir este filme. Um filme delicado, sensível, tocante mesmo. Fiquei curiosa em assistir outros filmes de Ettore Scola. Aprecio muito os filmes italianos. Obrigada por este presente, Mayrant. Grande abraço, Lidi.

2) Oi, Lidiane, acabei de ler seu comentário a Um dia muito especial. Você demonstra o quanto gostou do filme, e o quanto ele a "abalou". É, de fato, um filme excepcional. Um filme para assistirmos sempre. Uma aula de cinema. De vida. Um acúmulo de sentimentos estranhos, humanos e ilusórios. Com um detalhe: os dois personagens, solitários naquele conjunto residencial vazio como no fim do mundo, acompanhados de uma única ave, são como o último casal sobre a Terra... E a ave os une como que para a procriação de um novo mundo, mais justo, sensível e sem preconceitos, sem guerra, sem violência. Um símbolo, uma utopia, claro, já que eles vão continuar o que são, embora, paradoxalmente, transformados. Era isso, abraço, M.

sábado, 20 de junho de 2009

POEMA

NÃO BRINQUEI COM MEU CÃO

Estive cansado ontem quase todo o dia.

O corre-corre foi intenso mesmo quando estive parado.
Não pude apreciar livros nas livrarias, nem pensei em olhar
                                             [a programação de cinema.
Não brinquei com meu cão, mal beijei minha esposa.
Tomei café sem atentar para seu gosto, seu calor.
Li duas ou três páginas de Scliar sem a devida atenção.
Não procurei estrelas no céu,
Não pensei em ninguém, em nenhum amigo ou parente,
Não pensei nem em mim mesmo.
Passei o dia ignorando existências, dores, sentimentos, artes, combates.
Passei o dia com homens e mulheres sem que eu soubesse, nem eles,
Que o amor é provável, e que a amizade é possível,
E mesmo um acordo entre inimigos...
Passei o dia rabiscando e apagando, com o corpo,
O tempo e o espaço à minha volta
E tentando me convencer de que estou certo, todos estamos certos,
Que este é o trilho, e que vamos por ele para o único destino conhecido.
Sim, vamos, e é isso que implica em vazio:
O deste sábado, o de ontem e o de amanhã, que é domingo.
Que alguém nos salve disso a que chamam de... Não, não vou dizer!
Seria nomear o inominável.
Prefiro que o leitor preencha o que chamo de− com as palavras de sua
                                                                 [própria experiência.
Afinal, por que outro motivo leríamos poesia?
Por que outro motivo nos daríamos a chance de brincar de roda
                                                                 [entre as palavras,
De cegos entre metáforas?
MAYRANT GALLO. De Nem mesmo os passarinhos tristes, inédito.
Foto: autoria de Dulciene Anjos.

quarta-feira, 17 de junho de 2009

RECEIO DO OUTRO

1
Certa vez perguntei a um especialista em filmes de bangue-bangue sobre um filme a que eu tinha assistido na infância e do qual gostara muito: Céu amarelo. Sem hesitar, o sujeito me garantiu que o filme não existia:
“Conheço todos os filmes de faroeste e nunca ouvi falar desse...”
A resistência veemente do sujeito me obrigou a procurar, por mim mesmo, alguns livros sobre o assunto, nos quais eu pudesse encontrar qualquer referência ao tal filme. Não foi difícil: o primeiro que abri evidenciou que eu estava certo. Céu amarelo não só existia como era considerado um clássico do gênero, dirigido por um de seus mestres incontestáveis: William Wellman.
2
Um episódio inverso, creio, me fez tomar gosto pelo conhecimento e buscá-lo, embora sem desespero: quando adolescente eu lia muito e sempre estava com um livro diferente enfiado entre os cadernos e livros de escola. Então, uma tarde, um garoto de outra turma e que eu só conhecia de vista me viu com um romance de Pasolini.
“Pasolini? O cineasta?”, perguntou, com um indisfarçável tom de admiração.
Naquela época eu não sabia quem era Pasolini e só havia apanhado o livro na biblioteca pública por causa do título, atraído pelo mistério da frase: A hora depois do sonho. No entanto, daí por diante não me deixei mais apanhar ou surpreender. Pasolini logo se tornou para mim um cineasta dos mais freqüentes e instigantes. E foram bem poucas as vezes, desde então, que alguém me falou de algum artista importante sem que eu o conhecesse, ao menos de referência.
3
Examinando superficialmente os dois episódios, me dou conta de que ambos representam modelos de professor. O primeiro é aquele que, do alto do seu conhecimento, desdenha o que não conhece; e o segundo, aquele que, mesmo ciente de que sabe, compreende que pode saber ainda mais, e que o conhecimento nos chega pelas mais estranhas vias: pela ação inconsciente de um neófito, por exemplo. Os dois, no entanto, despertaram em mim a fúria pelo saber, e a eles sou grato, pois, a um só tempo, me tiraram do embotamento e me fizeram ver que não somos senão o receio do outro ou o seu fantasma.


Imagem: cartaz do filme Johnny Guitar (1954), de Nicholas Ray. Um faroeste feminista cultuado por cineastas como Truffaut, Scorsese e Almodóvar. A canção homônima que embala a trama é de Peggy Lee, interpretada por ela mesma, que diz: "Jamais houve um homem como Johnny Guitar".

terça-feira, 16 de junho de 2009

NÃO HESITEM!

Clique em cima da imagem, para ler o texto do convite.
Responda e ganhe um exemplar do livro:
1) O que aconteceu com o ator principal de Vá e veja, de Klimov, depois de terminadas as filmagens?
2) Que romances de Dino Buzzati foram adaptados para o cinema?
3) Que livro de Herberto Sales foi considerado por Guimarães Rosa um dos melhores romances da literatura brasileira?
4) Que romance de José J. Veiga satiriza a Ditadura Militar Brasileira? Em que ano ele foi publicado?
5) Que composição da música erudita é considerada o marco da arte moderna? Quem a compôs?
6) Em que filme Monica Belucci aparece fazendo uma ponta tão pequena, que não mereceu nem crédito?
7) Que escritor famoso faz uma ponta em A noite americana, de Truffaut?

domingo, 14 de junho de 2009

DOIS POEMAS

REMOS

De canoa, vinha visitá-la
Todos os domingos à tarde
E juntos, lado a lado,
Se beijavam.

Eram namorados e um dia seriam casados.
A ilha invejava o idílio.
O idílio envolvia a ilha.

Um dia, depois de anos,
Ele não veio.

Acharam só a canoa vazia.
Sem os remos.


O TEMPO

Onde ontem uma barbearia
Hoje uma lanchonete

Se os tempos são unos e simultâneos
Enquanto se come
Cabelos flutuam

Comem-se sanduíches
E mechas.

MAYRANT GALLO. De OS PRAZERES E OS CRIMES, inédito. A bela foto acima é de autoria da fotógrafa NATHY SILVA.

domingo, 7 de junho de 2009

ESTÉTICA VIOLENTA

Não há explicação quanto ao que nos faz gostar de um poema um conto um romance um filme. Quantas vezes li Felicidade, de Marques Rebelo, bem brasileiro! Quantas vezes a primeira página de Machado, o Casmurro. E mais ainda a frase “que eu conheço de vista e de chapéu”. Quantas vezes Antonioni, Camus, Örkény! Quantas vezes os exercícios de Borges. Exercícios mentais, históricos, de exibição do intelecto para o gozo dos olhos. Quantas vezes, em Tóquio violenta, de Suzuki, esta cena: um carro, bandidos, uma mulher bonita que surge na calçada, um deles que a chama, e ela que se volta – e assim a imagem, num close inesperado e estonteante, revela-nos seus olhos, sua boca e nos antecipa toda a estética do filme, pois a surpresa da moça é a nossa.
Imagem: close de Tóquio violenta (1966), de Seijun Suzuki.

quinta-feira, 4 de junho de 2009

PORTAL STALKER: DESAFIO

"A Terra é o berço da humanidade, mas não se vive no berço eternamente." (Tsiolkovsky)

Comunicado aos cultores da ficção científica: a revista Portal Stalker já está na plataforma, com previsão de lançamento para o fim do mês de junho. Aguardem. Enquanto isso, prove que você conhece o gênero em questão e responda:

1) Qual o nome do robô do filme clássico O dia em que a Terra parou?
2) Que escritor é considerado o criador da palavra "robot"?
3) Qual o título do conto de Jorge Luis Borges que preconiza a "possibilidade alien"?
4) Que filme clássico da FC é citado em Adeus, Lênin?
5) Quantas versões cinematográficas foram feitas do romance Os invasores de corpos, de Jack Finney? Quais?
6) Que livro da FC é referido por C. G. Jung no apêndice do seu estudo Um mito moderno sobre coisas vistas no céu?

Ao vencedor as batatas! Quero dizer, um exemplar da Portal Stalker. Se houver empate, valerá quem enviou as respostas primeiro.

Integram a Portal Stalker os seguintes autores: Brontops, Ivan Hegenberg, Luiz Brás, Marco Antônio de Araújo Bueno, Maria Helena Bandeira, Mayrant Gallo, Roberto de Sousa Causo, Rodrigo Novaes de Almeida, Sérgio Tavares & Tiago Araújo. O editor e organizador é Nelson de Oliveira.

terça-feira, 2 de junho de 2009

ENCONTRO MARCADO

INSTANTE

Um burro debaixo de uma árvore.
Um menino chorando, outro menino sonhando.
Uma mãe pra cima e pra baixo e um homem na cama.

A terra
O tempo
A vida escorrendo.

OUTONO

Melancólicas,
as árvores fitam suas folhas no chão!

AZUL

O olho azul do gato
mar que anda pela casa.

LÚCIA SANTÓRI-CARNEIRO é poetisa quase bissexta: publicou Peixe (1980) e As voltas do tempo (2008). O autor do comentário mais criativo e sincero posto aqui será premiado com um exemplar de As voltas do tempo, autografado pela autora.

segunda-feira, 1 de junho de 2009

A PROPÓSITO...

O HOMEM SOLITÁRIO

Ele estava na ilha desde o início do verão. Na casinha da colina instalara-se solitário e sem qualquer esperança de que chegasse alguém. Nas duas pensões próximas e no hotel sobre as pedras, já na curva da ilha, os hóspedes eram os mesmos dos anos anteriores, com algumas caras novas, porém.
Esta tarde ele fora à praia com um livro nas mãos e, debaixo do sombreiro, se pusera a ler. Com a aproximação do carnaval, poucos eram os banhistas, e especialmente naquele momento, meio de tarde, não havia nenhum sequer. Só uma família – dois casais idosos – tomava sol de costas para o mar, como num quadro de Hopper.
O que o desviou de sua leitura foi a grande sombra que passou sobre ele, sobre os dois casais e seguiu para o mar. Quando levantou os olhos, viu que o avião mergulhava de bico na água calma e brilhante da tarde. Toda a ação não lhe consumiu senão quinze segundos de sua vida, e o avião, imerso no mar, já não existia.
“Ei, ei, vocês viram?”, perguntou, correndo em direção aos casais de velhos.
“Não! Não! O quê?”, um deles disse.
“O avião!”
Não, ninguém vira, e ainda mais que o avião mergulhara em silêncio, como se os motores não mais funcionassem, e não fossem, aqueles velhos, tão surdos como montanhas.
“Avião? Não, não vi. Alguém viu?”
À ausência de resposta seguiu-se a reacomodação às espreguiçadeiras e ao sol, ao frescor agradável da tarde que findava e que nada mais poderia ferir.
Restou ao homem, parado à margem das ondas, olhar para o ponto do mar onde o avião desaparecera e imaginar, com horror, o que estaria acontecendo lá embaixo: o pânico dos passageiros, a dor da morte ao fim do último resíduo de oxigênio, o desespero por sair e se salvar...
E se ninguém na ilha parecia ter visto o avião, ele próprio – passado o assombro do primeiro momento – começou a se questionar se de fato o avistara, se o acidente, tão insólito, realmente acontecera. Se ele ao menos soubesse mergulhar...
Mas, à noite, com os pés na água, lá estava ele diante das ondas, incrédulo – sonho de todos os que dormiam à sua volta.


Miniconto que integra Nem mesmo os passarinhos tristes e que teve origem num sonho, em janeiro de 2009. Foto (Globo.com): aeronave similar ao avião da Air France que desapareceu ontem no espaço aéreo entre o Brasil e o Senegal.

quarta-feira, 27 de maio de 2009

E PRA BEBER?

NO INTERVALO, TALVEZ ALGUÉM SUSSURRE NO SEU OUVIDO: "Na verdade, só existe a direção que tomamos. O que poderia ter sido já não conta. Ninguém aceita essa moeda; nem eu." (Mario Benedetti)

segunda-feira, 25 de maio de 2009

FIRMINO ROCHA, EM BRONZE

DERAM UM FUZIL AO MENINO

Adeus luares de Maio.
Adeus tranças de Maria.
Nunca mais a inocência,
nunca mais a alegria,
nunca mais a grande música
no coração do menino.
Agora é o tambor da morte
rufando nos campos negros.
Agora são os pés violentos
ferindo a terra bendita.
A cantiga, onde ficou a cantiga?
No caderno de números,
o verso ficou sozinho.
Adeus ribeirinhos dourados.
Adeus estrelas tangíveis.
Adeus tudo que é de Deus.
DERAM UM FUZIL AO MENINO.

FIRMINO ROCHA (1910-1971). Poeta do Sul da Bahia. Vestido de terno preto e gravata, e sem jamais abrir mão da cachaça, era um assíduo das noites de Ilhéus e Itabuna, recitando seus versos com vozeirão rouco e, especialmente, o poema acima, que está gravado em placa de bronze, na sede da ONU, em Nova Iorque. Agradeço a Valdomiro Santana o conhecimento deste poema. Ilustração: Pixotes, de Arno.

quarta-feira, 20 de maio de 2009

NÃO PERCAM!

Endereço da Academia de Letras da Bahia: Av. Joana Angêlica, 198, Palacete Góes Calmon, Nazaré, Salvador, BA. Aberto ao público.

domingo, 17 de maio de 2009

VÁ E VEJA, 2

O cineasta Andrzej Wajda, nascido polonês em 1926, já poderia ter encerrado a carreira há muito tempo, talvez em 1958, quando lançou Cinzas e diamantes, o terceiro filme de sua Trilogia da Guerra, que teve início em 1954, com Geração, e prosseguiu em 1957, com o insólito e irônico Kanal. Esses três filmes já bastariam para colocá-lo entre os maiores realizadores de cinema do século XX. Mas Wajda não parou e não parou mesmo: seu Katyn (2007) é a prova de que ele continua propenso a fazer da Segunda Guerra Mundial o centro da crueldade e da imoralidade humanas. A trama do filme é simples: em 1939, enquanto os alemães invadem a Polônia por um lado, a URSS invade por outro. Na cena inicial, numa ponte, os poloneses fogem dos alemães para o abraço nada cálido dos soviéticos, que os esperam com cinismo, balas e baionetas. Assim, até 1945, os poloneses-não-judeus (pois os judeus foram enviados aos campos de concentração) vão conviver com o horror praticado por duas nações, cujos governos se dizem fadados a viver um milênio (o Nazismo) ou para sempre (o Comunismo). A estrutura do filme quase nos obriga a esquecer a Guerra: não há invasões, escaramuças, bombardeios, retaliações, nada. Apenas o cotidiano terrível e cruel, em meio a soviéticos-comunistas e alemães-nazistas, que são, sem qualquer exagero, espelho e imagem uns dos outros, a ponto de se atribuir a estes um massacre cometido por aqueles, fazendo das duas nações uma só, de cujo brasão escorre sangue alheio, polonês. A sequência final de Katyn, uma das páginas mais hediondas da história humana, é sem dúvida uma das mais tristes e infames que o cinema já perpetrou. E que Wajda filmou com a frieza e o silêncio de uma lâmina. Um filme que justifica a afirmação de Camus, de que o século XX foi um século úmido. Todavia, ainda há, como sempre houve, pessoas suficientemente ingênuas para perguntar se choveu muito...

Para o escritor Carlos Barbosa, no dia do seu aniversário.

sexta-feira, 15 de maio de 2009

INTERLÚDIO RUBRO-POLÍTICO

Nunca, na história deste país, tivemos que pagar para economizar nosso dinheirinho na poupança...

Surpresos?

"Pois é, não tamos entendendo o hic desse nunc, nem o quid desse quod." (RAYMOND QUENEAU)

Créditos: a caricatura é de autoria de Rafael Filho, publicada em 14/08/2007. A frase de Queneau está em Zazie no metrô (Rocco, 1985), em tradução de Irene M. H. Cubric.

quinta-feira, 7 de maio de 2009

CATÁLOGO MAIGRET, 3

A PRIMEIRA INVESTIGAÇÃO DE MAIGRET (La première enquête de Maigret). Embora publicado em 1949, já na fase intermediária da série Maigret, enfoca a primeira investigação do comissário, ainda um simples secretário, e se passa no ano de 1913. O jovem, inexperiente e indeciso Maigret se vê às voltas com um assassinato sem corpo nem evidências concretas, e em pleno seio da alta burguesia parisiense. A história começa com um grito numa janela, seguido de um disparo. A única testemunha do evento é um músico, que se tornará o primeiro assistente de Maigret e, sem dúvida, o seu único arrimo nessa história, em que fica patente o tratamento diferenciado que se confere às classes sociais, mesmo num país de ideais libertários como a França. Pobres são pobres; ricos são ricos e mais alguma coisa... Maigret é convidado por seu chefe a fazer uma investigação pró-forma, que não leve a nada. Ao fim, porque desobedece, é afastado do caso e ignorado por todo o corpo policial, como se fosse um ser invisível e inumano. Mas tem a sua recompensa: é promovido. E, assim, silenciado. O jovem Maigret aprende então, e bem cedo, que há concessão para tudo neste mundo e que a vida, como diria Machado de Assis, é só uma operação de créditos e débitos.

AS CORES DA VIDA – "Da tarde ficara-lhe uma lembrança radiosa, a de uma das mais belas primaveras de Paris, do ar tão suave e perfumado que as pessoas se detinham na rua para aspirá-lo. Há dias as mulheres deviam sair nas horas mais quentes trajando roupas leves, mas só então ele o percebia. Tinha a impressão de assistir a uma floração de blusas claras, e já se avistavam margaridas, girassóis e miosótis nos chapéus, enquanto os homens se arriscavam a usar seus palhinhas."

VERDADE INÚTIL – "'Compreende? Provocar o mínimo de desgaste. A quem serviria toda a história?' 'À verdade.' 'Que verdade?'"

IMPRESSÕES – "Maigret não era ainda um homem desembaraçado. Lembrava-se apenas do cheiro de desinfetante no momento em que se precipitou na escada do metrô, do estalido das portas automáticas, da longa viagem na penumbra subterrânea, com vultos que oscilavam a cada movimento do carro, rostos escavados pela luz elétrica, olhos sonolentos."

SEGREDO A DOIS – "Uma enfermeira cortou-lhe os cabelos do alto da cabeça enquanto o médico lhe dizia tolices. Ela era muito bonita, assim uniformizada. Pelo jeito como se entreolhavam, deviam ter-se amado pouco antes da chegada de Maigret."

COMO NO AMOR – "Tinham estragado tudo, conspurcado a sua polícia. Não estava aborrecido por lhe arrebatarem um pequeno sucesso. Era algo mais profundo. Lembrava uma desilusão amorosa."

PODER – "Compreendia agora que não era uma simples questão de dinheiro. A partir de determinado nível de fortuna não é o dinheiro que importa, e sim o poder."

domingo, 3 de maio de 2009

AS AVENTURAS DE NICOLAU & RICARDO: DETETIVES

4. A FILHA

Nicolau e Ricardo não sabiam que estavam sendo seguidos. A primeira evidência veio com a bala que varou o ombro de Nicolau. A segunda – e não menos dolorosa – com outra bala, que se alojou na coxa esquerda de Ricardo.
Caídos e impotentes na rua escura e deserta – e Ricardo fora particularmente azarado, pois na queda perdera a pistola –, esperaram pelo vulto e pelo tiro de misericórdia... Uma cusparada no rosto foi tudo o que receberam. E as palavras, que o pistoleiro expeliu como se também cuspisse:
“Minha filha merecia mais respeito!”
E se foi.
Semanas depois, já restabelecidos e de volta ao trabalho, Nicolau e Ricardo se perguntavam a quem o atirador se referia: se às 87 mulheres assassinadas no Estado ao longo de um ano ou às 413 estupradas que tiveram coragem de procurar a polícia...
“Qual seria a sua filha?”
E Ricardo manuseava de um lado a outro as várias fotos de mulheres, que, muito antes de estar ali, nos frios arquivos da polícia, foram lindas garotinhas.


Em breve, o quinto episódio da segunda temporada. Imagem: capa da edição francesa de The getaway, de Jim Thompson (Gallimard, 1987).

quinta-feira, 30 de abril de 2009

VÁ E VEJA, 1: O ECLIPSE


O longa-metragem O eclipse, de Antonioni, que integra a Trilogia da Incomunicabilidade, formada ainda por A noite e A aventura, é dos três o mais misterioso e cifrado. A trama, esvaziada de peripécias, acompanha os encontros e desencontros entre Vittoria (Monica Vitti), recém-saída de uma relação amorosa asfixiante, e Piero (Alain Delon), um operador da bolsa de valores de Roma. Pouco interessado em contar uma história, Antonioni concentra-se nos sentimentos e pensamentos dos personagens, que, imersos numa bela paisagem urbana, não chegam a um acordo quanto ao que pretendem um do outro. Mudez, gestos e olhares dizem mais que as palavras, neste filme que é, provavelmente, a obra-prima do cineasta, a suma do seu estilo, marcadamente visual, e de suas pretensões: mergulhar no sentido ou no vazio da alma humana.

sábado, 25 de abril de 2009

BRINQUEDO PERDIDO

Contato imediato
Ele me disse: "Venha segunda de manhã, vou receber umas galinhas, e então acertamos tudo". Foi exatamente o que ele disse: "receber umas galinhas". E por minha cabeça passou a imagem de um bando de putas invadindo seu escritório. "Você é detetive, não é?", perguntou, quando concordei em ir. "Hein?", insistiu, com impaciência, a voz grave, sólida, de quem está acostumado a ralhar com os subalternos. "Sou e não sou", respondi afinal, com firmeza. Ele ficou em silêncio e depois disse, num surto de cobrança: "Explique". Eu explicaria, mas não por telefone. Ou talvez apenas o fizesse compreender tudo, por uma imagem, uma precisa e feliz imagem. "Segunda-feira então, com as galinhas...", ironizei. Novo silêncio. "Certo, venha, mas venha cedo", ele disse, respeitando todas as vírgulas. E desligou.


Primeira parte do conto Brinquedo perdido, um noir de minha autoria, publicado na Revista da Academia de Letras da Bahia, n. 48, de Novembro de 2008, e que foi lançada recentemente. O conteúdo da revista inclui artigos, ensaios, contos, crônicas, poemas e textos teatrais. Entre os colaboradores figuram: Ruy Espinheira Filho, Carlos Ribeiro, Hélio Pólvora, Florisvado Mattos, Dorine Cerqueira, Aramis Ribeiro Costa, entre outros.