"Eu respirava naquelas salas, como um incenso, esse cheiro de velha biblioteca que vale todos os perfumes do mundo." Antoine de Saint-Exupéry

quinta-feira, 4 de junho de 2009

PORTAL STALKER: DESAFIO

"A Terra é o berço da humanidade, mas não se vive no berço eternamente." (Tsiolkovsky)

Comunicado aos cultores da ficção científica: a revista Portal Stalker já está na plataforma, com previsão de lançamento para o fim do mês de junho. Aguardem. Enquanto isso, prove que você conhece o gênero em questão e responda:

1) Qual o nome do robô do filme clássico O dia em que a Terra parou?
2) Que escritor é considerado o criador da palavra "robot"?
3) Qual o título do conto de Jorge Luis Borges que preconiza a "possibilidade alien"?
4) Que filme clássico da FC é citado em Adeus, Lênin?
5) Quantas versões cinematográficas foram feitas do romance Os invasores de corpos, de Jack Finney? Quais?
6) Que livro da FC é referido por C. G. Jung no apêndice do seu estudo Um mito moderno sobre coisas vistas no céu?

Ao vencedor as batatas! Quero dizer, um exemplar da Portal Stalker. Se houver empate, valerá quem enviou as respostas primeiro.

Integram a Portal Stalker os seguintes autores: Brontops, Ivan Hegenberg, Luiz Brás, Marco Antônio de Araújo Bueno, Maria Helena Bandeira, Mayrant Gallo, Roberto de Sousa Causo, Rodrigo Novaes de Almeida, Sérgio Tavares & Tiago Araújo. O editor e organizador é Nelson de Oliveira.

terça-feira, 2 de junho de 2009

ENCONTRO MARCADO

INSTANTE

Um burro debaixo de uma árvore.
Um menino chorando, outro menino sonhando.
Uma mãe pra cima e pra baixo e um homem na cama.

A terra
O tempo
A vida escorrendo.

OUTONO

Melancólicas,
as árvores fitam suas folhas no chão!

AZUL

O olho azul do gato
mar que anda pela casa.

LÚCIA SANTÓRI-CARNEIRO é poetisa quase bissexta: publicou Peixe (1980) e As voltas do tempo (2008). O autor do comentário mais criativo e sincero posto aqui será premiado com um exemplar de As voltas do tempo, autografado pela autora.

segunda-feira, 1 de junho de 2009

A PROPÓSITO...

O HOMEM SOLITÁRIO

Ele estava na ilha desde o início do verão. Na casinha da colina instalara-se solitário e sem qualquer esperança de que chegasse alguém. Nas duas pensões próximas e no hotel sobre as pedras, já na curva da ilha, os hóspedes eram os mesmos dos anos anteriores, com algumas caras novas, porém.
Esta tarde ele fora à praia com um livro nas mãos e, debaixo do sombreiro, se pusera a ler. Com a aproximação do carnaval, poucos eram os banhistas, e especialmente naquele momento, meio de tarde, não havia nenhum sequer. Só uma família – dois casais idosos – tomava sol de costas para o mar, como num quadro de Hopper.
O que o desviou de sua leitura foi a grande sombra que passou sobre ele, sobre os dois casais e seguiu para o mar. Quando levantou os olhos, viu que o avião mergulhava de bico na água calma e brilhante da tarde. Toda a ação não lhe consumiu senão quinze segundos de sua vida, e o avião, imerso no mar, já não existia.
“Ei, ei, vocês viram?”, perguntou, correndo em direção aos casais de velhos.
“Não! Não! O quê?”, um deles disse.
“O avião!”
Não, ninguém vira, e ainda mais que o avião mergulhara em silêncio, como se os motores não mais funcionassem, e não fossem, aqueles velhos, tão surdos como montanhas.
“Avião? Não, não vi. Alguém viu?”
À ausência de resposta seguiu-se a reacomodação às espreguiçadeiras e ao sol, ao frescor agradável da tarde que findava e que nada mais poderia ferir.
Restou ao homem, parado à margem das ondas, olhar para o ponto do mar onde o avião desaparecera e imaginar, com horror, o que estaria acontecendo lá embaixo: o pânico dos passageiros, a dor da morte ao fim do último resíduo de oxigênio, o desespero por sair e se salvar...
E se ninguém na ilha parecia ter visto o avião, ele próprio – passado o assombro do primeiro momento – começou a se questionar se de fato o avistara, se o acidente, tão insólito, realmente acontecera. Se ele ao menos soubesse mergulhar...
Mas, à noite, com os pés na água, lá estava ele diante das ondas, incrédulo – sonho de todos os que dormiam à sua volta.


Miniconto que integra Nem mesmo os passarinhos tristes e que teve origem num sonho, em janeiro de 2009. Foto (Globo.com): aeronave similar ao avião da Air France que desapareceu ontem no espaço aéreo entre o Brasil e o Senegal.

quarta-feira, 27 de maio de 2009

E PRA BEBER?

NO INTERVALO, TALVEZ ALGUÉM SUSSURRE NO SEU OUVIDO: "Na verdade, só existe a direção que tomamos. O que poderia ter sido já não conta. Ninguém aceita essa moeda; nem eu." (Mario Benedetti)

segunda-feira, 25 de maio de 2009

FIRMINO ROCHA, EM BRONZE

DERAM UM FUZIL AO MENINO

Adeus luares de Maio.
Adeus tranças de Maria.
Nunca mais a inocência,
nunca mais a alegria,
nunca mais a grande música
no coração do menino.
Agora é o tambor da morte
rufando nos campos negros.
Agora são os pés violentos
ferindo a terra bendita.
A cantiga, onde ficou a cantiga?
No caderno de números,
o verso ficou sozinho.
Adeus ribeirinhos dourados.
Adeus estrelas tangíveis.
Adeus tudo que é de Deus.
DERAM UM FUZIL AO MENINO.

FIRMINO ROCHA (1910-1971). Poeta do Sul da Bahia. Vestido de terno preto e gravata, e sem jamais abrir mão da cachaça, era um assíduo das noites de Ilhéus e Itabuna, recitando seus versos com vozeirão rouco e, especialmente, o poema acima, que está gravado em placa de bronze, na sede da ONU, em Nova Iorque. Agradeço a Valdomiro Santana o conhecimento deste poema. Ilustração: Pixotes, de Arno.

quarta-feira, 20 de maio de 2009

NÃO PERCAM!

Endereço da Academia de Letras da Bahia: Av. Joana Angêlica, 198, Palacete Góes Calmon, Nazaré, Salvador, BA. Aberto ao público.

domingo, 17 de maio de 2009

VÁ E VEJA, 2

O cineasta Andrzej Wajda, nascido polonês em 1926, já poderia ter encerrado a carreira há muito tempo, talvez em 1958, quando lançou Cinzas e diamantes, o terceiro filme de sua Trilogia da Guerra, que teve início em 1954, com Geração, e prosseguiu em 1957, com o insólito e irônico Kanal. Esses três filmes já bastariam para colocá-lo entre os maiores realizadores de cinema do século XX. Mas Wajda não parou e não parou mesmo: seu Katyn (2007) é a prova de que ele continua propenso a fazer da Segunda Guerra Mundial o centro da crueldade e da imoralidade humanas. A trama do filme é simples: em 1939, enquanto os alemães invadem a Polônia por um lado, a URSS invade por outro. Na cena inicial, numa ponte, os poloneses fogem dos alemães para o abraço nada cálido dos soviéticos, que os esperam com cinismo, balas e baionetas. Assim, até 1945, os poloneses-não-judeus (pois os judeus foram enviados aos campos de concentração) vão conviver com o horror praticado por duas nações, cujos governos se dizem fadados a viver um milênio (o Nazismo) ou para sempre (o Comunismo). A estrutura do filme quase nos obriga a esquecer a Guerra: não há invasões, escaramuças, bombardeios, retaliações, nada. Apenas o cotidiano terrível e cruel, em meio a soviéticos-comunistas e alemães-nazistas, que são, sem qualquer exagero, espelho e imagem uns dos outros, a ponto de se atribuir a estes um massacre cometido por aqueles, fazendo das duas nações uma só, de cujo brasão escorre sangue alheio, polonês. A sequência final de Katyn, uma das páginas mais hediondas da história humana, é sem dúvida uma das mais tristes e infames que o cinema já perpetrou. E que Wajda filmou com a frieza e o silêncio de uma lâmina. Um filme que justifica a afirmação de Camus, de que o século XX foi um século úmido. Todavia, ainda há, como sempre houve, pessoas suficientemente ingênuas para perguntar se choveu muito...

Para o escritor Carlos Barbosa, no dia do seu aniversário.

sexta-feira, 15 de maio de 2009

INTERLÚDIO RUBRO-POLÍTICO

Nunca, na história deste país, tivemos que pagar para economizar nosso dinheirinho na poupança...

Surpresos?

"Pois é, não tamos entendendo o hic desse nunc, nem o quid desse quod." (RAYMOND QUENEAU)

Créditos: a caricatura é de autoria de Rafael Filho, publicada em 14/08/2007. A frase de Queneau está em Zazie no metrô (Rocco, 1985), em tradução de Irene M. H. Cubric.

quinta-feira, 7 de maio de 2009

CATÁLOGO MAIGRET, 3

A PRIMEIRA INVESTIGAÇÃO DE MAIGRET (La première enquête de Maigret). Embora publicado em 1949, já na fase intermediária da série Maigret, enfoca a primeira investigação do comissário, ainda um simples secretário, e se passa no ano de 1913. O jovem, inexperiente e indeciso Maigret se vê às voltas com um assassinato sem corpo nem evidências concretas, e em pleno seio da alta burguesia parisiense. A história começa com um grito numa janela, seguido de um disparo. A única testemunha do evento é um músico, que se tornará o primeiro assistente de Maigret e, sem dúvida, o seu único arrimo nessa história, em que fica patente o tratamento diferenciado que se confere às classes sociais, mesmo num país de ideais libertários como a França. Pobres são pobres; ricos são ricos e mais alguma coisa... Maigret é convidado por seu chefe a fazer uma investigação pró-forma, que não leve a nada. Ao fim, porque desobedece, é afastado do caso e ignorado por todo o corpo policial, como se fosse um ser invisível e inumano. Mas tem a sua recompensa: é promovido. E, assim, silenciado. O jovem Maigret aprende então, e bem cedo, que há concessão para tudo neste mundo e que a vida, como diria Machado de Assis, é só uma operação de créditos e débitos.

AS CORES DA VIDA – "Da tarde ficara-lhe uma lembrança radiosa, a de uma das mais belas primaveras de Paris, do ar tão suave e perfumado que as pessoas se detinham na rua para aspirá-lo. Há dias as mulheres deviam sair nas horas mais quentes trajando roupas leves, mas só então ele o percebia. Tinha a impressão de assistir a uma floração de blusas claras, e já se avistavam margaridas, girassóis e miosótis nos chapéus, enquanto os homens se arriscavam a usar seus palhinhas."

VERDADE INÚTIL – "'Compreende? Provocar o mínimo de desgaste. A quem serviria toda a história?' 'À verdade.' 'Que verdade?'"

IMPRESSÕES – "Maigret não era ainda um homem desembaraçado. Lembrava-se apenas do cheiro de desinfetante no momento em que se precipitou na escada do metrô, do estalido das portas automáticas, da longa viagem na penumbra subterrânea, com vultos que oscilavam a cada movimento do carro, rostos escavados pela luz elétrica, olhos sonolentos."

SEGREDO A DOIS – "Uma enfermeira cortou-lhe os cabelos do alto da cabeça enquanto o médico lhe dizia tolices. Ela era muito bonita, assim uniformizada. Pelo jeito como se entreolhavam, deviam ter-se amado pouco antes da chegada de Maigret."

COMO NO AMOR – "Tinham estragado tudo, conspurcado a sua polícia. Não estava aborrecido por lhe arrebatarem um pequeno sucesso. Era algo mais profundo. Lembrava uma desilusão amorosa."

PODER – "Compreendia agora que não era uma simples questão de dinheiro. A partir de determinado nível de fortuna não é o dinheiro que importa, e sim o poder."

domingo, 3 de maio de 2009

AS AVENTURAS DE NICOLAU & RICARDO: DETETIVES

4. A FILHA

Nicolau e Ricardo não sabiam que estavam sendo seguidos. A primeira evidência veio com a bala que varou o ombro de Nicolau. A segunda – e não menos dolorosa – com outra bala, que se alojou na coxa esquerda de Ricardo.
Caídos e impotentes na rua escura e deserta – e Ricardo fora particularmente azarado, pois na queda perdera a pistola –, esperaram pelo vulto e pelo tiro de misericórdia... Uma cusparada no rosto foi tudo o que receberam. E as palavras, que o pistoleiro expeliu como se também cuspisse:
“Minha filha merecia mais respeito!”
E se foi.
Semanas depois, já restabelecidos e de volta ao trabalho, Nicolau e Ricardo se perguntavam a quem o atirador se referia: se às 87 mulheres assassinadas no Estado ao longo de um ano ou às 413 estupradas que tiveram coragem de procurar a polícia...
“Qual seria a sua filha?”
E Ricardo manuseava de um lado a outro as várias fotos de mulheres, que, muito antes de estar ali, nos frios arquivos da polícia, foram lindas garotinhas.


Em breve, o quinto episódio da segunda temporada. Imagem: capa da edição francesa de The getaway, de Jim Thompson (Gallimard, 1987).

quinta-feira, 30 de abril de 2009

VÁ E VEJA, 1: O ECLIPSE


O longa-metragem O eclipse, de Antonioni, que integra a Trilogia da Incomunicabilidade, formada ainda por A noite e A aventura, é dos três o mais misterioso e cifrado. A trama, esvaziada de peripécias, acompanha os encontros e desencontros entre Vittoria (Monica Vitti), recém-saída de uma relação amorosa asfixiante, e Piero (Alain Delon), um operador da bolsa de valores de Roma. Pouco interessado em contar uma história, Antonioni concentra-se nos sentimentos e pensamentos dos personagens, que, imersos numa bela paisagem urbana, não chegam a um acordo quanto ao que pretendem um do outro. Mudez, gestos e olhares dizem mais que as palavras, neste filme que é, provavelmente, a obra-prima do cineasta, a suma do seu estilo, marcadamente visual, e de suas pretensões: mergulhar no sentido ou no vazio da alma humana.

sábado, 25 de abril de 2009

BRINQUEDO PERDIDO

Contato imediato
Ele me disse: "Venha segunda de manhã, vou receber umas galinhas, e então acertamos tudo". Foi exatamente o que ele disse: "receber umas galinhas". E por minha cabeça passou a imagem de um bando de putas invadindo seu escritório. "Você é detetive, não é?", perguntou, quando concordei em ir. "Hein?", insistiu, com impaciência, a voz grave, sólida, de quem está acostumado a ralhar com os subalternos. "Sou e não sou", respondi afinal, com firmeza. Ele ficou em silêncio e depois disse, num surto de cobrança: "Explique". Eu explicaria, mas não por telefone. Ou talvez apenas o fizesse compreender tudo, por uma imagem, uma precisa e feliz imagem. "Segunda-feira então, com as galinhas...", ironizei. Novo silêncio. "Certo, venha, mas venha cedo", ele disse, respeitando todas as vírgulas. E desligou.


Primeira parte do conto Brinquedo perdido, um noir de minha autoria, publicado na Revista da Academia de Letras da Bahia, n. 48, de Novembro de 2008, e que foi lançada recentemente. O conteúdo da revista inclui artigos, ensaios, contos, crônicas, poemas e textos teatrais. Entre os colaboradores figuram: Ruy Espinheira Filho, Carlos Ribeiro, Hélio Pólvora, Florisvado Mattos, Dorine Cerqueira, Aramis Ribeiro Costa, entre outros.

sexta-feira, 24 de abril de 2009

POESIA DESSACRALIZADA

Ontem, no recital de Georgio Rios, Paulo André e Thiago Lins, na Praça de Poesia da Bienal do Livro da Bahia, falei com o Lima Trindade que o trio de Feira de Santana faz uma poesia que em outros países, como EUA, França e Argentina, seria aceita como uma arte literária de primeira qualidade, baseada na memória, nos sentimentos pessoais, nas impressões oculares e fortemente influenciada pela linguagem e pelos temas de outros campos do conhecimento humano, como a Filosofia e a Psicanálise. Mas estamos no Nordeste e na Bahia. Aqui, infelizmente, o "típico" e o "local" são qualidades que jamais se exaurem e prosseguem a combater e alijar diferenças estéticas e escolhas individuais. Sem mencionar o fato de que a métrica e a rima consoante (amor\dor) ainda são, para muitos poetas daqui, critérios de valor e o único recurso poético evidente, em detrimento do ritmo, das aliterações, das assonâncias, dos incidentes sonoros, dos vazios e não-ditos, da polissemia. À guisa de exemplo, leiamos o poema abaixo, do poeta norte-americano Douglas Messerli, traduzido por Cláudia Roquette-Pinto.

NÃO ESTAVA AQUI QUANDO O SOL NASCEU

O sonho
num acesso
de pretextos
matutinos
vigia
com pequenos espinhos
o novo dia
findo, mas surgindo
à porta
do profundíssimo
ocaso, nos afina
com o atraso.

(DOUGLAS MESSERLI. In: Primeiras palavras. São Paulo: Ateliê, 1996.)

Poesia humana e sem Deus, embora, como dizia Barthes, sempre uma guloseima sagrada. Um dizer que se diz para não dizer outra coisa. E que é único, sem repetições, nem permanência. Aprecie aquele leitor ou leitora que, sensível, se permita viver outros "eus", outros delírios, outras sonoridades, pois o Universo é ritmo (e a vida humana, uma constante descoberta de si mesma). Sem ritmo, não há poesia, não há vida, sonhos, nada. E o que nos restará, ao fim, é o que as palavras encenam.

domingo, 19 de abril de 2009

CURTA-METRAGEM

Hoje, consultando a esmo um livro de Cecília Meireles com o propósito de coletar um poema para uma oficina que pretendo ministrar, me deparei com esta pequena jóia, que não sei se me é desconhecida ou se esqueci.

DESENHO

Pescador tão entretido
numa pedra ao sol,
esperando o peixe ferido
pelo teu anzol,

há um fio do céu descido
sobre o teu coração:
de longe estás sendo ferido
por outra mão.


Deus, talvez. Traição amorosa ou fraterna. A morte. Não sei. Outra coisa ou força ou solidão ou desespero. Fica o que está e o que imaginamos. A música das palavras e, claro, a imagem, o desenho. O certo é que daria um belo curta-metragem, de cinco minutos − se muito. O pescador lá pescando − céu, mar, nuvens, vento, gaivotas − e, de repente, antes que ele pesque o peixe, uma mão gigantesca o pesca para o espaço.


Foto: Carlos Carvalho.

sexta-feira, 17 de abril de 2009

PIERRE DRIEU LA ROCHELLE

Ao fim de tudo, ele se matou, em 15 de março de 1945. Mas sua sobrevivência permanece, graças a um grupo de leitores fiéis e a um filme dirigido por Louis Malle, Trinta anos esta noite, baseado em seu romance Le feu follet (Fogo fátuo). Viveu sozinho entre dois extremos: a esquerda mais suja e a direita mais parva. À frente da Nouvelle Révue Française, em plena ocupação da França pelos alemães, foi acusado de traidor e capacho dos invasores, pois, se havia escritores eminentes que colaboravam com a revista, é certo que estes se foram debandando, e de súbito La Rochelle ficou só e odiado por muitos. Foi veementemente criticado, sobretudo por Sartre, então na clandestinidade. Quando os aliados chegaram, continuava ele afeito ao seu trabalho e cumprindo suas obrigações, à mercê de uma possível e inevitável vingança, que veio e não veio... Depois de duas tentativas frustradas de suicídio, finalmente suprimiu-se à vida, ingerindo veronal em associação com gás de cozinha, ciente de que “jogara num dos lados e perdera”. Três citações de sua autoria o definem: “Sempre me acusei de ser eu mesmo”; “A fidelidade persiste enquanto persiste o espanto”; “Deus é um humorista. Do amante mais agudamente macho, de repente ele faz uma fêmea. O extremo positivo, ele vira em negativo. Do advertido, faz um invertido. Assim gira a roda”. Conselho: faça como a maioria, não o leia.

domingo, 12 de abril de 2009

CATÁLOGO MAIGRET, 2

MAIGRET E A JOVEM MORTA (Maigret et la jeune morte). Publicado em 1954, este relato promove uma inesperada disputa entre o comissário Maigret e Lognon, o inspetor dito Mal-Ajambrado, que tem complexo de inferioridade e vive com mania de perseguição. Ao mesmo tempo que durante a investigação serve ao comissário, Lognon tenta superá-lo e, desse modo, ser reconhecido como um excelente detetive, sem saber que na opinião de Maigret já o é. O pretexto para essa emulação é a história da jovem Louise Lamboine, que foge de casa em Nice e vai para Paris, onde, depois de passar por muitas privações, é assassinada na solidão de uma noite. Quem era Louise Lamboine? Por que foi morta? Quem a matou? E por quê? O fim da competição entre os dois policiais é marcado por uma sutil ironia: a mesma pista que despacha Lognon para Bruxelas, atrás de um viajante improvável, permite a Maigret resolver o mistério ali mesmo, em Paris. O comissário, contudo, não se vangloria, pois Lognon não cometera nenhum erro: "não há curso de polícia que ensine a colocar-se na pele de uma jovem educada em Nice por uma mãe semi-louca". Mais que uma investigação policial, este romance representa um interessante estudo sobre a inadaptação ao mundo, o abandono e a dor de estar vivo.

A VÍTIMA – "Maigret não confessava a si mesmo que o que mais o intrigava era o rosto da vítima. Conhecia apenas um dos perfis. Quem sabe eram as equimoses que lhe emprestavam aquele ar aborrecido? Parecia uma garotinha mal-humorada. Os cabelos castanhos jogados para trás, muito leves, eram naturalmente ondulados. Sob a chuva, a maquilagem diluíra-se um pouco e, em vez de a envelhecer ou enfear, isso a tornava ainda mais jovem e atraente."

OS SONS DA VIDA – "Escutava Paris despertar pouco a pouco lá fora, ruídos isolados, mais ou menos longínquos, primeiro espaçados, depois formando uma espécie de sinfonia familiar. Os porteiros começavam arrastar os latões de lixo para o meio-fio. Na escada soaram os passos da empregadinha da leiteria que colocava as garrafas de leite diante das portas."

O QUEBRA-CABEÇA – "Louise Laboine era como as chapas fotográficas mergulhadas no revelador. Dois dias antes não existia para eles. Tornara-se depois um vulto azul, um perfil na calçada úmida da praça Vintimille, um corpo alvo no mármore do Instituto Médico-Legal. Agora tinha nome; a imagem que começava a esboçar-se permanecia ainda esquemática."

CHUVA – "Lá em cima, as nuvens deixaram o branco e dourado para se tornarem de um cinzento azulado, e a chuva começou a cair em diagonal, tamborilando no peitoril da janela, enquanto na ponte Saint-Michel as pessoas de repente caminhavam mais depressa, como nos velhos filmes mudos, as mulheres segurando as saias."

LOGNON, O RIVAL – "Queria tanto acertar, sentia tal desejo de se distinguir, que avançava de cabeça baixa, persuadido de que dessa vez provaria o seu valor.
Seu valor era reconhecido. Só ele não o sabia."

IRONIA – "Até sua morte era como que uma ironia do destino. Se a correntinha da bolsa prateada não estivesse enrolada no pulso, Bianchi se limitaria a arrebatá-la e o carro se afastaria a toda velocidade."

quinta-feira, 2 de abril de 2009

VIVER, ESCREVER

Leitores às vezes julgam na escuridão; críticos, na penumbra. Quais as intenções de um livro? Quais as intenções do autor? E do texto? Das frases (sempre um mistério)? Das palavras (nascidas, não raro, de incidentes da própria criação)? E quais são as influências das circunstâncias, do contexto, da contingência histórica? Meio, família, visão de mundo, grau de instrução, realizações pessoais, fracassos, medos e eventuais pressões de natureza sócio-econômica interferem ou não em quem escreve? Segundo Hemingway há uma diferença enorme entre aquele que “vive para escrever” e aquele que “vive de escrever”. Por exemplo, David Goodis, que disse: “No começo, eu queria escrever de modo solene e só abordar os grandes problemas, mas logo aprendi que o problema mais importante era comer, então eu me conformei em escrever o que os editores queriam”. Autor, talvez, dos mais poéticos romances policiais já escritos, Goodis morreu aos 49 anos em conseqüência dos ferimentos numa briga de rua.

Imagem: cartaz de Tirez sur le pianiste (1960), de François Truffaut, baseado no romance Down there (1956), de David Goodis (1917-1967).

domingo, 29 de março de 2009

LESTE EUROPEU, 1

Fotografia de Evgen Bavcar.

AS TRÊS PALAVRAS MAIS ESTRANHAS

Quando pronuncio a palavra Futuro,
a primeira sílaba já pertence ao passado.

Quando pronuncio a palavra Silêncio,
destruo-o.

Quando pronuncio a palavra Nada,
crio algo que não cabe em nenhum não-ser.


TUDO

Tudo –
palavra atrevida e enfunada de soberba.
Deveria escrever-se entre aspas.
Aparenta nada omitir,
tudo reunir, abarcar, conter e ter.
Porém, não é mais
do que um farrapo do caos.


DAS RECORDAÇÕES

Estávamos à conversa
e de repente calámo-nos.
No terraço apareceu uma rapariga,
ai que bonita,
demasiado bonita
para a nossa estada aqui, tão sossegada.

A Bárbara, alarmada, olhou de relance para o marido.
A Krystyna, instintivamente, pousou sua mão
sobre a do Zbyszek.
E eu pensei ligar e dizer-te:
por enquanto não venhas,
prevêem chuva para os próximos dias.

Somente a Agnieszka, viúva,
saudou a bonita rapariga com um sorriso.


WISLAWA SZYMBORSKA (1923). Poetisa polonesa, Prêmio Nobel de 1996. Traduzidos por Elzbieta Milewska e Sérgio Neves, os poemas acima integram o volume Instante (Chwila): Lisboa: Relógio D´Água, 2006.

segunda-feira, 23 de março de 2009

CATÁLOGO MAIGRET, 1

AS FÉRIAS DE MAIGRET (Les vacances de Maigret) foi publicado em 1948. O comissário, gozando férias em Sables-d’Olonne com a esposa, vê sua rotina mudar radicalmente quando a Sra. Maigret é hospitalizada às pressas para uma cirurgia. Este evento fortuito altera o cotidiano ocioso de Maigret, que, mesmo desinteressado dos acontecimentos que o enredam e insatisfeito com o rumo de sua diletante investigação, vai solucionar mais um mistério e agarrar mais um criminoso. Neste romance, que é um dos melhores da série, Simenon reflete sobre as conseqüências do ciúme amoroso na vida de um homem, bem como sobre o aprisionamento existencial a que o excesso de beleza pode conduzir uma mulher. Uma das melhores personagens do livro – e em torno da qual toda a trama se constrói – ironicamente não aparece nem para Maigret nem para o leitor. Quando afinal se obtém a chave que dá acesso aos seus aposentos íntimos, o romance termina. Tal característica faz deste relato um dos mais simbólicos e subjetivos já escritos por Simenon.

A BELA ADORMECIDA. "Vendo Maigret parado na soleira, Francis não fechara a porta. E o comissário voltou a entrar na casa, olhando para a pequena chave que tinha entre as mãos, a chave do quarto de cortinas fechadas, onde se ouvia a respiração regular de uma mulher adormecida."

GUARDADOS DA VIDA. "Um cheiro de coisa velha saía da gaveta, à qual viriam juntar-se as recordações de Lucile e o seu atestado de óbito."

MUNDO VORAZ. "Os Duffieux não tinham feito outra coisa, toda a sua vida, senão trabalhar e contar cada centavo. Na casa deles havia uma menina morta, sua filha, e, em vez de os deixarem com a sua dor, ninguém se inibia de lhes fazer as perguntas mais íntimas, enquanto os curiosos encostavam o nariz nas vidraças das janelas e os jornalistas os bombardeavam com flashes."

LÍMPIDO, PRECISO E POÉTICO. "– Nossa reverenda madre não demora... Sempre aquele roçar de saias, aquele entrechocar de rosários, o deslocamento de ar das toucas de asas reviradas."

sexta-feira, 13 de março de 2009

AS AVENTURAS DE NICOLAU & RICARDO: DETETIVES

3. COMPACTO E DIFUSO

Quarta-feira de cinzas e, por mais que o Governo e a imprensa disfarcem e escondam, muitos foram os crimes durante o Carnaval. Houve inclusive uma Dália Negra baiana. Uma jovem encontrada nua num terreno baldio, o ventre aberto por um enorme talho que quase a dividiu em duas, como uma fruta – e as bochechas rasgadas, os seios lacerados, os pés comidos por atos de tortura...
Nicolau e Ricardo contemplavam a cena macabra, em meio a jornalistas, curiosos, flashes e câmaras de tevê.
“Num país sério, começaríamos por investigar quem comprou o livro Dália Negra – ou locou o filme – nos últimos três meses...”, comentou Nicolau.
Ricardo nada respondeu. Mas Isaac, o jovem detetive que eles estavam treinando para um dia substituí-los:
“E por que não fazemos isso?”
Nicolau ignorou a pergunta, virou-se e foi se afastando da multidão que cercava o cadáver. Ricardo e Isaac o seguiram.
“A nossa sociedade não é compacta; logo, ninguém se importa que haja crimes assim, e nem mesmo mais bárbaros que este”, acrescentou Nicolau.
Chegaram ao carro e já estavam entrando, quando Isaac perguntou, balançando a cabeça de um para o outro detetive:
“E como é a nossa sociedade?”
Não parecia se divertir, embora o ar jovial, a expressão risonha.
“Difusa”, respondeu Ricardo, antecipando-se a Nicolau.


Para Renata Belmonte, nesta Sexta-Feira 13, seu aniversário. Semana que vem, o quarto episódio da série. Ilustração: capa do livro Mulher no escuro, de Dashiell Hammett, pela L&PM, 2007.

sexta-feira, 6 de março de 2009

AS AVENTURAS DE NICOLAU & RICARDO: DETETIVES

2. A CARNE E O CARNAVAL

Nicolau e Ricardo foram escalados para os dois piores dias do Carnaval: domingo e segunda-feira. Incógnitos na multidão, eles observavam. De repente, um bandido, a assediar dois estrangeiros. Levado a uma cilada com mais três facínoras num beco deserto, o casal foi pilhado de seus pertences. Quando a garota estava por ser também pilhada de sua honra, Nicolau e Ricardo resolveram intervir... Porém:
“Non!”, protestou ela.
“No, no!”, consolidou seu companheiro.
Afastando-se com Nicolau, Ricardo disse:
“No passado, eles vinham tomar nosso ouro, agora vêm tomar no...”
Mas, como tivessem retornado ao núcleo do frenesi, a última palavra foi engolida pelo fragor dos corpos...


Semana que vem tem mais. Imagem: cena de A lira do delírio (1978), filme de Walter Lima Jr.

terça-feira, 3 de março de 2009

A SENTENÇA

Sonhou que transava com três mulheres. Mais: que as satisfazia.
Acordou, e nem a esposa estava ao seu lado...


Miniconto de Nem mesmo os passarinhos tristes, inédito.
Quadro: O julgamento de Páris, de Petrus Paulus Rubens (1577-1640).

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

AS AVENTURAS DE NICOLAU & RICARDO: DETETIVES

1. O BOM BANDIDO

Ele vinha descendo das montanhas para o mar. Nas mãos e nos pés doíam-lhe as feridas. O ar fresco, à medida que ele se aproximava de seu destino, banhava-lhe o rosto de um inesperado alívio. Não o suficiente, no entanto, para que pensasse em perdão. Pelo contrário. Prestes a alcançar a areia e o mar e o elemento que fora, talvez, o catalisador do seu nascimento, de sua queda, ele pensava, citando qualquer autor: “Todos os homens são para mim milagres que eu gostaria de esquecer, velas que acendi para o nada”. E foi com esse espírito que ele desapareceu sob as ondas, sem olhar para trás, antes que Nicolau e Ricardo o alcançassem...
Início da SEGUNDA TEMPORADA. Semana que vem tem mais. Capa da edição francesa de Jim Thompson, romancista noir norte-americano.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

A BEM-AMADA

O romance A bem-amada, de Thomas Hardy, metaforicamente evoca as estações da vida. Filosoficamente, lança uma teoria: amamos o amor; a Bem-Amada é uma entidade que aparece num corpo e num rosto, fica por um tempo a nos seduzir e enredar, vai embora de repente, mas um dia retorna, sob os mesmos encantos da primeira ou última aparição. Amamos, portanto, a Bem-Amada, essência sempre presente, recorrente, “substância intangível” em espírito, sonho, frenesi, conceito, aroma e resumida, metonimicamente, a “uma síntese do sexo, uma luz do olhar, um separar de lábios”. Aquela presença que “nunca estava em dois lugares ao mesmo tempo; e até aquele momento nunca permanecera por muito tempo num só lugar”. Lugar leia-se por “ser”, “pessoa”, “mulher”. Estilística e tematicamente concebido no e para o século XIX, A bem-amada tem – sem o favor de nenhum gosto de época ou moda de passagem – o requinte da eternidade.

Capa da edição brasileira (São Paulo: Códex, 2003), com tradução de Luís Bueno e Patrícia Cardoso.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

NINHO VAZIO

O filme argentino Ninho vazio, de Daniel Burman, é metalingüístico. Também é uma aula de criação literária, mais precisamente de narrativa.
Passa-se quase todo entre duas seqüências menores, que o enquadram. É, assim, uma narrativa dentro de outra narrativa, uma ficção fechada no espaço de outra ficção: aquilo que em Teoria da Literatura chamamos de relato enquadrado. E a narrativa que constitui verdadeiramente o filme, o Ninho vazio, é a trama que o dramaturgo imagina enquanto espera que sua filha volte da noitada de sábado com o namorado.
Nesse ínterim, ele cria o argumento de uma história que pretende escrever, e é esta história, ainda em estado mental, que se constrói diante de nós – no decorrer do filme –, tendo o próprio escritor como protagonista, e girando sempre em torno de sua biografia, alterada, porém, pela habilidade que ele próprio, como autor, tem de distanciar o que está perto e aproximar o que está longe.
A trama se resume a um desfilar de motivos que lhe foram oferecidos pela própria vida e por aquela noite, passada no restaurante com os amigos de faculdade de sua esposa: o médico psiquiatra que ele conhece na mesa e com o qual mantém uma conversa à parte e que se torna seu conselheiro; a garota que ele entrevê na mesa ao lado e pela qual, ao menos por um instante, se apaixona; a menção por parte da esposa ao namorado da filha, que também seria escritor e ganha relevo na história como um contraste ao pai-autor-chato; o recorrente CD de música francesa, que acaba por ser o elemento que nos revela a natureza ficcional ou onírica daquela seqüência de breves e bem-humorados fatos cotidianos e familiares... E o mote do filme, largado no início por um fortuito comentário de um dos convivas, mais ou menos assim: no fundo sempre há influência biográfica. Claro! Mas não como repetição. Escrever e filmar é fazer reviver, preencher de novo o ninho já vazio, mas sempre de outra forma, jamais alcançada pela vida: “No mesmo rio entramos e não entramos; somos e não somos”.
Por tudo isso foi que, ao fim da sessão, comentei com um amigo que Ninho vazio era um filme atraente, despretensioso, preciso e sofisticado. Como quase tudo o que a Argentina tem produzido ultimamente, tanto em cinema quanto em literatura.