"Eu respirava naquelas salas, como um incenso, esse cheiro de velha biblioteca que vale todos os perfumes do mundo." Antoine de Saint-Exupéry

quinta-feira, 30 de abril de 2009

VÁ E VEJA, 1: O ECLIPSE


O longa-metragem O eclipse, de Antonioni, que integra a Trilogia da Incomunicabilidade, formada ainda por A noite e A aventura, é dos três o mais misterioso e cifrado. A trama, esvaziada de peripécias, acompanha os encontros e desencontros entre Vittoria (Monica Vitti), recém-saída de uma relação amorosa asfixiante, e Piero (Alain Delon), um operador da bolsa de valores de Roma. Pouco interessado em contar uma história, Antonioni concentra-se nos sentimentos e pensamentos dos personagens, que, imersos numa bela paisagem urbana, não chegam a um acordo quanto ao que pretendem um do outro. Mudez, gestos e olhares dizem mais que as palavras, neste filme que é, provavelmente, a obra-prima do cineasta, a suma do seu estilo, marcadamente visual, e de suas pretensões: mergulhar no sentido ou no vazio da alma humana.

sábado, 25 de abril de 2009

BRINQUEDO PERDIDO

Contato imediato
Ele me disse: "Venha segunda de manhã, vou receber umas galinhas, e então acertamos tudo". Foi exatamente o que ele disse: "receber umas galinhas". E por minha cabeça passou a imagem de um bando de putas invadindo seu escritório. "Você é detetive, não é?", perguntou, quando concordei em ir. "Hein?", insistiu, com impaciência, a voz grave, sólida, de quem está acostumado a ralhar com os subalternos. "Sou e não sou", respondi afinal, com firmeza. Ele ficou em silêncio e depois disse, num surto de cobrança: "Explique". Eu explicaria, mas não por telefone. Ou talvez apenas o fizesse compreender tudo, por uma imagem, uma precisa e feliz imagem. "Segunda-feira então, com as galinhas...", ironizei. Novo silêncio. "Certo, venha, mas venha cedo", ele disse, respeitando todas as vírgulas. E desligou.


Primeira parte do conto Brinquedo perdido, um noir de minha autoria, publicado na Revista da Academia de Letras da Bahia, n. 48, de Novembro de 2008, e que foi lançada recentemente. O conteúdo da revista inclui artigos, ensaios, contos, crônicas, poemas e textos teatrais. Entre os colaboradores figuram: Ruy Espinheira Filho, Carlos Ribeiro, Hélio Pólvora, Florisvado Mattos, Dorine Cerqueira, Aramis Ribeiro Costa, entre outros.

sexta-feira, 24 de abril de 2009

POESIA DESSACRALIZADA

Ontem, no recital de Georgio Rios, Paulo André e Thiago Lins, na Praça de Poesia da Bienal do Livro da Bahia, falei com o Lima Trindade que o trio de Feira de Santana faz uma poesia que em outros países, como EUA, França e Argentina, seria aceita como uma arte literária de primeira qualidade, baseada na memória, nos sentimentos pessoais, nas impressões oculares e fortemente influenciada pela linguagem e pelos temas de outros campos do conhecimento humano, como a Filosofia e a Psicanálise. Mas estamos no Nordeste e na Bahia. Aqui, infelizmente, o "típico" e o "local" são qualidades que jamais se exaurem e prosseguem a combater e alijar diferenças estéticas e escolhas individuais. Sem mencionar o fato de que a métrica e a rima consoante (amor\dor) ainda são, para muitos poetas daqui, critérios de valor e o único recurso poético evidente, em detrimento do ritmo, das aliterações, das assonâncias, dos incidentes sonoros, dos vazios e não-ditos, da polissemia. À guisa de exemplo, leiamos o poema abaixo, do poeta norte-americano Douglas Messerli, traduzido por Cláudia Roquette-Pinto.

NÃO ESTAVA AQUI QUANDO O SOL NASCEU

O sonho
num acesso
de pretextos
matutinos
vigia
com pequenos espinhos
o novo dia
findo, mas surgindo
à porta
do profundíssimo
ocaso, nos afina
com o atraso.

(DOUGLAS MESSERLI. In: Primeiras palavras. São Paulo: Ateliê, 1996.)

Poesia humana e sem Deus, embora, como dizia Barthes, sempre uma guloseima sagrada. Um dizer que se diz para não dizer outra coisa. E que é único, sem repetições, nem permanência. Aprecie aquele leitor ou leitora que, sensível, se permita viver outros "eus", outros delírios, outras sonoridades, pois o Universo é ritmo (e a vida humana, uma constante descoberta de si mesma). Sem ritmo, não há poesia, não há vida, sonhos, nada. E o que nos restará, ao fim, é o que as palavras encenam.

domingo, 19 de abril de 2009

CURTA-METRAGEM

Hoje, consultando a esmo um livro de Cecília Meireles com o propósito de coletar um poema para uma oficina que pretendo ministrar, me deparei com esta pequena jóia, que não sei se me é desconhecida ou se esqueci.

DESENHO

Pescador tão entretido
numa pedra ao sol,
esperando o peixe ferido
pelo teu anzol,

há um fio do céu descido
sobre o teu coração:
de longe estás sendo ferido
por outra mão.


Deus, talvez. Traição amorosa ou fraterna. A morte. Não sei. Outra coisa ou força ou solidão ou desespero. Fica o que está e o que imaginamos. A música das palavras e, claro, a imagem, o desenho. O certo é que daria um belo curta-metragem, de cinco minutos − se muito. O pescador lá pescando − céu, mar, nuvens, vento, gaivotas − e, de repente, antes que ele pesque o peixe, uma mão gigantesca o pesca para o espaço.


Foto: Carlos Carvalho.

sexta-feira, 17 de abril de 2009

PIERRE DRIEU LA ROCHELLE

Ao fim de tudo, ele se matou, em 15 de março de 1945. Mas sua sobrevivência permanece, graças a um grupo de leitores fiéis e a um filme dirigido por Louis Malle, Trinta anos esta noite, baseado em seu romance Le feu follet (Fogo fátuo). Viveu sozinho entre dois extremos: a esquerda mais suja e a direita mais parva. À frente da Nouvelle Révue Française, em plena ocupação da França pelos alemães, foi acusado de traidor e capacho dos invasores, pois, se havia escritores eminentes que colaboravam com a revista, é certo que estes se foram debandando, e de súbito La Rochelle ficou só e odiado por muitos. Foi veementemente criticado, sobretudo por Sartre, então na clandestinidade. Quando os aliados chegaram, continuava ele afeito ao seu trabalho e cumprindo suas obrigações, à mercê de uma possível e inevitável vingança, que veio e não veio... Depois de duas tentativas frustradas de suicídio, finalmente suprimiu-se à vida, ingerindo veronal em associação com gás de cozinha, ciente de que “jogara num dos lados e perdera”. Três citações de sua autoria o definem: “Sempre me acusei de ser eu mesmo”; “A fidelidade persiste enquanto persiste o espanto”; “Deus é um humorista. Do amante mais agudamente macho, de repente ele faz uma fêmea. O extremo positivo, ele vira em negativo. Do advertido, faz um invertido. Assim gira a roda”. Conselho: faça como a maioria, não o leia.

domingo, 12 de abril de 2009

CATÁLOGO MAIGRET, 2

MAIGRET E A JOVEM MORTA (Maigret et la jeune morte). Publicado em 1954, este relato promove uma inesperada disputa entre o comissário Maigret e Lognon, o inspetor dito Mal-Ajambrado, que tem complexo de inferioridade e vive com mania de perseguição. Ao mesmo tempo que durante a investigação serve ao comissário, Lognon tenta superá-lo e, desse modo, ser reconhecido como um excelente detetive, sem saber que na opinião de Maigret já o é. O pretexto para essa emulação é a história da jovem Louise Lamboine, que foge de casa em Nice e vai para Paris, onde, depois de passar por muitas privações, é assassinada na solidão de uma noite. Quem era Louise Lamboine? Por que foi morta? Quem a matou? E por quê? O fim da competição entre os dois policiais é marcado por uma sutil ironia: a mesma pista que despacha Lognon para Bruxelas, atrás de um viajante improvável, permite a Maigret resolver o mistério ali mesmo, em Paris. O comissário, contudo, não se vangloria, pois Lognon não cometera nenhum erro: "não há curso de polícia que ensine a colocar-se na pele de uma jovem educada em Nice por uma mãe semi-louca". Mais que uma investigação policial, este romance representa um interessante estudo sobre a inadaptação ao mundo, o abandono e a dor de estar vivo.

A VÍTIMA – "Maigret não confessava a si mesmo que o que mais o intrigava era o rosto da vítima. Conhecia apenas um dos perfis. Quem sabe eram as equimoses que lhe emprestavam aquele ar aborrecido? Parecia uma garotinha mal-humorada. Os cabelos castanhos jogados para trás, muito leves, eram naturalmente ondulados. Sob a chuva, a maquilagem diluíra-se um pouco e, em vez de a envelhecer ou enfear, isso a tornava ainda mais jovem e atraente."

OS SONS DA VIDA – "Escutava Paris despertar pouco a pouco lá fora, ruídos isolados, mais ou menos longínquos, primeiro espaçados, depois formando uma espécie de sinfonia familiar. Os porteiros começavam arrastar os latões de lixo para o meio-fio. Na escada soaram os passos da empregadinha da leiteria que colocava as garrafas de leite diante das portas."

O QUEBRA-CABEÇA – "Louise Laboine era como as chapas fotográficas mergulhadas no revelador. Dois dias antes não existia para eles. Tornara-se depois um vulto azul, um perfil na calçada úmida da praça Vintimille, um corpo alvo no mármore do Instituto Médico-Legal. Agora tinha nome; a imagem que começava a esboçar-se permanecia ainda esquemática."

CHUVA – "Lá em cima, as nuvens deixaram o branco e dourado para se tornarem de um cinzento azulado, e a chuva começou a cair em diagonal, tamborilando no peitoril da janela, enquanto na ponte Saint-Michel as pessoas de repente caminhavam mais depressa, como nos velhos filmes mudos, as mulheres segurando as saias."

LOGNON, O RIVAL – "Queria tanto acertar, sentia tal desejo de se distinguir, que avançava de cabeça baixa, persuadido de que dessa vez provaria o seu valor.
Seu valor era reconhecido. Só ele não o sabia."

IRONIA – "Até sua morte era como que uma ironia do destino. Se a correntinha da bolsa prateada não estivesse enrolada no pulso, Bianchi se limitaria a arrebatá-la e o carro se afastaria a toda velocidade."

quinta-feira, 2 de abril de 2009

VIVER, ESCREVER

Leitores às vezes julgam na escuridão; críticos, na penumbra. Quais as intenções de um livro? Quais as intenções do autor? E do texto? Das frases (sempre um mistério)? Das palavras (nascidas, não raro, de incidentes da própria criação)? E quais são as influências das circunstâncias, do contexto, da contingência histórica? Meio, família, visão de mundo, grau de instrução, realizações pessoais, fracassos, medos e eventuais pressões de natureza sócio-econômica interferem ou não em quem escreve? Segundo Hemingway há uma diferença enorme entre aquele que “vive para escrever” e aquele que “vive de escrever”. Por exemplo, David Goodis, que disse: “No começo, eu queria escrever de modo solene e só abordar os grandes problemas, mas logo aprendi que o problema mais importante era comer, então eu me conformei em escrever o que os editores queriam”. Autor, talvez, dos mais poéticos romances policiais já escritos, Goodis morreu aos 49 anos em conseqüência dos ferimentos numa briga de rua.

Imagem: cartaz de Tirez sur le pianiste (1960), de François Truffaut, baseado no romance Down there (1956), de David Goodis (1917-1967).

domingo, 29 de março de 2009

LESTE EUROPEU, 1

Fotografia de Evgen Bavcar.

AS TRÊS PALAVRAS MAIS ESTRANHAS

Quando pronuncio a palavra Futuro,
a primeira sílaba já pertence ao passado.

Quando pronuncio a palavra Silêncio,
destruo-o.

Quando pronuncio a palavra Nada,
crio algo que não cabe em nenhum não-ser.


TUDO

Tudo –
palavra atrevida e enfunada de soberba.
Deveria escrever-se entre aspas.
Aparenta nada omitir,
tudo reunir, abarcar, conter e ter.
Porém, não é mais
do que um farrapo do caos.


DAS RECORDAÇÕES

Estávamos à conversa
e de repente calámo-nos.
No terraço apareceu uma rapariga,
ai que bonita,
demasiado bonita
para a nossa estada aqui, tão sossegada.

A Bárbara, alarmada, olhou de relance para o marido.
A Krystyna, instintivamente, pousou sua mão
sobre a do Zbyszek.
E eu pensei ligar e dizer-te:
por enquanto não venhas,
prevêem chuva para os próximos dias.

Somente a Agnieszka, viúva,
saudou a bonita rapariga com um sorriso.


WISLAWA SZYMBORSKA (1923). Poetisa polonesa, Prêmio Nobel de 1996. Traduzidos por Elzbieta Milewska e Sérgio Neves, os poemas acima integram o volume Instante (Chwila): Lisboa: Relógio D´Água, 2006.

segunda-feira, 23 de março de 2009

CATÁLOGO MAIGRET, 1

AS FÉRIAS DE MAIGRET (Les vacances de Maigret) foi publicado em 1948. O comissário, gozando férias em Sables-d’Olonne com a esposa, vê sua rotina mudar radicalmente quando a Sra. Maigret é hospitalizada às pressas para uma cirurgia. Este evento fortuito altera o cotidiano ocioso de Maigret, que, mesmo desinteressado dos acontecimentos que o enredam e insatisfeito com o rumo de sua diletante investigação, vai solucionar mais um mistério e agarrar mais um criminoso. Neste romance, que é um dos melhores da série, Simenon reflete sobre as conseqüências do ciúme amoroso na vida de um homem, bem como sobre o aprisionamento existencial a que o excesso de beleza pode conduzir uma mulher. Uma das melhores personagens do livro – e em torno da qual toda a trama se constrói – ironicamente não aparece nem para Maigret nem para o leitor. Quando afinal se obtém a chave que dá acesso aos seus aposentos íntimos, o romance termina. Tal característica faz deste relato um dos mais simbólicos e subjetivos já escritos por Simenon.

A BELA ADORMECIDA. "Vendo Maigret parado na soleira, Francis não fechara a porta. E o comissário voltou a entrar na casa, olhando para a pequena chave que tinha entre as mãos, a chave do quarto de cortinas fechadas, onde se ouvia a respiração regular de uma mulher adormecida."

GUARDADOS DA VIDA. "Um cheiro de coisa velha saía da gaveta, à qual viriam juntar-se as recordações de Lucile e o seu atestado de óbito."

MUNDO VORAZ. "Os Duffieux não tinham feito outra coisa, toda a sua vida, senão trabalhar e contar cada centavo. Na casa deles havia uma menina morta, sua filha, e, em vez de os deixarem com a sua dor, ninguém se inibia de lhes fazer as perguntas mais íntimas, enquanto os curiosos encostavam o nariz nas vidraças das janelas e os jornalistas os bombardeavam com flashes."

LÍMPIDO, PRECISO E POÉTICO. "– Nossa reverenda madre não demora... Sempre aquele roçar de saias, aquele entrechocar de rosários, o deslocamento de ar das toucas de asas reviradas."

sexta-feira, 13 de março de 2009

AS AVENTURAS DE NICOLAU & RICARDO: DETETIVES

3. COMPACTO E DIFUSO

Quarta-feira de cinzas e, por mais que o Governo e a imprensa disfarcem e escondam, muitos foram os crimes durante o Carnaval. Houve inclusive uma Dália Negra baiana. Uma jovem encontrada nua num terreno baldio, o ventre aberto por um enorme talho que quase a dividiu em duas, como uma fruta – e as bochechas rasgadas, os seios lacerados, os pés comidos por atos de tortura...
Nicolau e Ricardo contemplavam a cena macabra, em meio a jornalistas, curiosos, flashes e câmaras de tevê.
“Num país sério, começaríamos por investigar quem comprou o livro Dália Negra – ou locou o filme – nos últimos três meses...”, comentou Nicolau.
Ricardo nada respondeu. Mas Isaac, o jovem detetive que eles estavam treinando para um dia substituí-los:
“E por que não fazemos isso?”
Nicolau ignorou a pergunta, virou-se e foi se afastando da multidão que cercava o cadáver. Ricardo e Isaac o seguiram.
“A nossa sociedade não é compacta; logo, ninguém se importa que haja crimes assim, e nem mesmo mais bárbaros que este”, acrescentou Nicolau.
Chegaram ao carro e já estavam entrando, quando Isaac perguntou, balançando a cabeça de um para o outro detetive:
“E como é a nossa sociedade?”
Não parecia se divertir, embora o ar jovial, a expressão risonha.
“Difusa”, respondeu Ricardo, antecipando-se a Nicolau.


Para Renata Belmonte, nesta Sexta-Feira 13, seu aniversário. Semana que vem, o quarto episódio da série. Ilustração: capa do livro Mulher no escuro, de Dashiell Hammett, pela L&PM, 2007.

sexta-feira, 6 de março de 2009

AS AVENTURAS DE NICOLAU & RICARDO: DETETIVES

2. A CARNE E O CARNAVAL

Nicolau e Ricardo foram escalados para os dois piores dias do Carnaval: domingo e segunda-feira. Incógnitos na multidão, eles observavam. De repente, um bandido, a assediar dois estrangeiros. Levado a uma cilada com mais três facínoras num beco deserto, o casal foi pilhado de seus pertences. Quando a garota estava por ser também pilhada de sua honra, Nicolau e Ricardo resolveram intervir... Porém:
“Non!”, protestou ela.
“No, no!”, consolidou seu companheiro.
Afastando-se com Nicolau, Ricardo disse:
“No passado, eles vinham tomar nosso ouro, agora vêm tomar no...”
Mas, como tivessem retornado ao núcleo do frenesi, a última palavra foi engolida pelo fragor dos corpos...


Semana que vem tem mais. Imagem: cena de A lira do delírio (1978), filme de Walter Lima Jr.

terça-feira, 3 de março de 2009

A SENTENÇA

Sonhou que transava com três mulheres. Mais: que as satisfazia.
Acordou, e nem a esposa estava ao seu lado...


Miniconto de Nem mesmo os passarinhos tristes, inédito.
Quadro: O julgamento de Páris, de Petrus Paulus Rubens (1577-1640).

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

AS AVENTURAS DE NICOLAU & RICARDO: DETETIVES

1. O BOM BANDIDO

Ele vinha descendo das montanhas para o mar. Nas mãos e nos pés doíam-lhe as feridas. O ar fresco, à medida que ele se aproximava de seu destino, banhava-lhe o rosto de um inesperado alívio. Não o suficiente, no entanto, para que pensasse em perdão. Pelo contrário. Prestes a alcançar a areia e o mar e o elemento que fora, talvez, o catalisador do seu nascimento, de sua queda, ele pensava, citando qualquer autor: “Todos os homens são para mim milagres que eu gostaria de esquecer, velas que acendi para o nada”. E foi com esse espírito que ele desapareceu sob as ondas, sem olhar para trás, antes que Nicolau e Ricardo o alcançassem...
Início da SEGUNDA TEMPORADA. Semana que vem tem mais. Capa da edição francesa de Jim Thompson, romancista noir norte-americano.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

A BEM-AMADA

O romance A bem-amada, de Thomas Hardy, metaforicamente evoca as estações da vida. Filosoficamente, lança uma teoria: amamos o amor; a Bem-Amada é uma entidade que aparece num corpo e num rosto, fica por um tempo a nos seduzir e enredar, vai embora de repente, mas um dia retorna, sob os mesmos encantos da primeira ou última aparição. Amamos, portanto, a Bem-Amada, essência sempre presente, recorrente, “substância intangível” em espírito, sonho, frenesi, conceito, aroma e resumida, metonimicamente, a “uma síntese do sexo, uma luz do olhar, um separar de lábios”. Aquela presença que “nunca estava em dois lugares ao mesmo tempo; e até aquele momento nunca permanecera por muito tempo num só lugar”. Lugar leia-se por “ser”, “pessoa”, “mulher”. Estilística e tematicamente concebido no e para o século XIX, A bem-amada tem – sem o favor de nenhum gosto de época ou moda de passagem – o requinte da eternidade.

Capa da edição brasileira (São Paulo: Códex, 2003), com tradução de Luís Bueno e Patrícia Cardoso.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

NINHO VAZIO

O filme argentino Ninho vazio, de Daniel Burman, é metalingüístico. Também é uma aula de criação literária, mais precisamente de narrativa.
Passa-se quase todo entre duas seqüências menores, que o enquadram. É, assim, uma narrativa dentro de outra narrativa, uma ficção fechada no espaço de outra ficção: aquilo que em Teoria da Literatura chamamos de relato enquadrado. E a narrativa que constitui verdadeiramente o filme, o Ninho vazio, é a trama que o dramaturgo imagina enquanto espera que sua filha volte da noitada de sábado com o namorado.
Nesse ínterim, ele cria o argumento de uma história que pretende escrever, e é esta história, ainda em estado mental, que se constrói diante de nós – no decorrer do filme –, tendo o próprio escritor como protagonista, e girando sempre em torno de sua biografia, alterada, porém, pela habilidade que ele próprio, como autor, tem de distanciar o que está perto e aproximar o que está longe.
A trama se resume a um desfilar de motivos que lhe foram oferecidos pela própria vida e por aquela noite, passada no restaurante com os amigos de faculdade de sua esposa: o médico psiquiatra que ele conhece na mesa e com o qual mantém uma conversa à parte e que se torna seu conselheiro; a garota que ele entrevê na mesa ao lado e pela qual, ao menos por um instante, se apaixona; a menção por parte da esposa ao namorado da filha, que também seria escritor e ganha relevo na história como um contraste ao pai-autor-chato; o recorrente CD de música francesa, que acaba por ser o elemento que nos revela a natureza ficcional ou onírica daquela seqüência de breves e bem-humorados fatos cotidianos e familiares... E o mote do filme, largado no início por um fortuito comentário de um dos convivas, mais ou menos assim: no fundo sempre há influência biográfica. Claro! Mas não como repetição. Escrever e filmar é fazer reviver, preencher de novo o ninho já vazio, mas sempre de outra forma, jamais alcançada pela vida: “No mesmo rio entramos e não entramos; somos e não somos”.
Por tudo isso foi que, ao fim da sessão, comentei com um amigo que Ninho vazio era um filme atraente, despretensioso, preciso e sofisticado. Como quase tudo o que a Argentina tem produzido ultimamente, tanto em cinema quanto em literatura.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

BISNETOS DE CLARETE

Todo leitor de literatura já fez, em algum momento, sua lista de preferências. Ainda que seja só para uso pessoal. Os romances que mais aprecia... Seus contos preferidos... Os poemas aos quais retorna com freqüência... Aquelas peças cujo texto, de tão fluente e profundo, prescinde da apresentação no palco...
Pois bem, um dos meus contos prediletos da literatura brasileira, um daqueles que estou sempre relendo com meus alunos, em matérias regulares ou oficinas de leitura, é Felicidade, de Marques Rebelo. Um conto cujo mérito não reside apenas na história, mas em como ela se desenvolve, na estrutura de vaivém no tempo, nos cortes bruscos, em sua linguagem ao mesmo tempo poética e objetiva, em seu diálogo com a funcionalidade do cinema.
Além disso, é um relato cheio de humor e ironia, e que reflete as mudanças por que passava o Brasil, mais precisamente o Rio de Janeiro, da década de 1930: a expansão da mulher no mercado de trabalho, o influência do cinema no comportamento das pessoas, os resíduos de uma sociedade que acreditava que para uma mulher só restava o casamento como substrato de realização e felicidade pessoal.
Clarete, a protagonista, vai tanto ao cinema, que já possui um olhar cinemático. E caminha como as atrizes, percutindo os saltos, numa afetação de fazer voltar cabeças. E faz pose até para pegar bonde, pela manhã, a caminho do “trampo”. Além disso, gasta todo o seu salário ganho na companhia telefônica com roupas e maquiagem, e despreza com desdém os garotos de sua rua, sem, no entanto, deixar de ter seus momentos de fraqueza e dor, à noite, na solidão do seu quarto...
Assim, é em Clarete que penso quando, andando pelas ruas, me deparo com certas figuras. Se no tempo de Clarete havia o cinema como espelho para o comportamento, a aparência e as atitudes, há atualmente o cinema, a tevê, as inúmeras revistas e jornais recheados de fotos de modelos forjados para a vida, a internet e, sobretudo, o mundo da moda... Jamais vi tanta gente andando na rua como se estivesse numa passarela da moda, num desfile. O corpo em viva afetação. Os gestos e passos quase milimetricamente medidos. O olhar distante e vazio, a refletir descaso e indiferença. As roupas nem são assim tão chamativas, mas, inseridas num gosto exótico de momento, destacam o usuário ou revelam muito do seu caráter de papel.
Até o cinema vem reproduzindo esse ar de pose. Vários filmes, hoje, apresentam personagens femininas que reproduzem, linha por linha, não somente a magreza das modelos, mas também sua postura e bamboleio no ato do desfile, naquele momento em que a roupa representa tanto a alma exterior quanto a interior, como pretendia Machado de Assis num dos seus melhores contos, O espelho. Também a série de tevê Invasion, num certo momento crucial da trama, deixa que o vilão (até então quase incógnito) caminhe longamente, a mostrar-se em atitude de auto-exaltação, de exteriorização de um ego apaixonado por si mesmo, inflado, convencido, petulante, assoberbado: em câmara lenta, ele surge, se exibe, seduz e vai embora. Um ou dois minutos de auto-aprovação e afirmação para o mundo.
Ontem mesmo, pela manhã, nos mais ou menos 500m que perfaço de casa até o trabalho, avistei quatro ou cinco pessoas (e não somente mulheres, como alguns leitores poderiam supor) que se colocavam na realidade assim: cientes de que, bem ou mal, se exibiam para uma platéia. A cada olhar que surpreendiam e deixavam para trás, ofereciam seu ar de autodefesa e imolação, como se dissessem: “Gostou de mim, me admirou? Pois bem, agora me esqueça!”
Já não caminhamos: desfilamos. Já não vivemos: representamos.
Será que ainda morremos?

Foto: cena de "desfile", no filme Não conte a ninguém, de Guillaume Canet.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

O FLUXO

O sol está se pondo, mas também se colocando
Para uma nova manhã.
Está nascendo e morrendo, se dando e tirando.

Este é o sentido
O rolar do tempo e de tudo.
Mude isso
E não haverá nem mesmo o próximo segundo.

O fluxo. O contínuo e imutável fluxo.

Mesmo as surpresas não são o que parecem.
São somente tese. Que segue.

E não há antítese. Não.
Dizer não é ter dito sim.
Síntese.

Poema incluso em Os prazeres e os crimes, inédito.
Foto: Pacatatu.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

LIMPO

Jamais havia se drogado, o que não o impediu, uma noite, de sair para jogar futebol de salão deixando os tênis em casa...

Miniconto de Nem mesmo os passarinhos tristes, inédito.
Pintura: Pelada de futebol, de Nerival Rodrigues.

domingo, 15 de fevereiro de 2009

LUTADORES & PERDEDORES

A grande assertiva do filme O lutador, de Darren Aronofsky, é a de que só existe uma luta e, conseqüentemente, um único adversário: a vida.
Mickey Rourke é Randy Robinson, o Carneiro, lutador de luta livre, aquela modalidade de esporte que visa mais ao espetáculo (através de combates simulados e cheios de presepadas) que à verdadeira competição. No Brasil, ficou muito conhecida, nos anos 1960, como telequete e consagrou seu príncipe: Ted Boy Marino, ex-integrante do grupo Os trapalhões.
Depois de um terrível combate (cuja simulação é das mais esdrúxulas, repleta de sangue, vidro e metal), Randy tem um infarto. Recuperado, mas assombrado com a recomendação médica de que não pode mais lutar profissionalmente, o Carneiro decide se aposentar.
É então que ele descobre que o seu maior adversário “não pode ser medido nem pesado”: vai combater com a filha lésbica que já não o considera seu pai; vai ser proibido de ter uma existência normal com Pam, porque esta, em sua condição de stripper, não pode se relacionar com os clientes; vai descobrir que há mais golpes a receber por trás do balcão de frios de um supermercado do que no ringue...
Seco, duro, realista, melancólico e reflexivo, O lutador desloca para o cinema − e para um contexto específico de truculência − uma idéia que há muitas décadas é explorada pelos ficcionistas norte-americanos e seus epígonos: Ernest Hemingway, Charles Bukowski e o francês Jean-Claude Izzo, em algum momento de sua arte, empregam essa idéia de que a vida é o adversário a levar à lona, mas é ela que, em geral, nos nocauteia.
Não é esse senão o assunto do conto Kid Foguete no matadouro, de Bukowski. A vida é uma luta, e ela começa no “pátio de recreio das escolas americanas”; se o sujeito começou perdendo ali, será um perdedor por toda a sua medíocre existência: “na América a gente tem que ser vitorioso, não há escapatória, e é preciso aprender a lutar por ninharias, sem discutir”.
Hemingway desenvolve a idéia do pugilismo como metáfora da condição humana, e o pior dos socos é o de um lutador canhoto. No entanto, o “maior pugilista canhoto de que já se teve notícia é mesmo a vida”...
Izzo, com um olhar em Hemingway e outro na predileção francesa por uma literatura de idéias, afirma: “A vida não era nada além de uma sucessão de rounds”. Dar socos e aprender a levar socos, agüentá-los.
Pois o lutador Randy Robinson, o Carneiro, aprendeu que os golpes da vida são mais certeiros.


Foto: Mickey Rourke em cena de O lutador , de Darren Aronofsky.

sábado, 14 de fevereiro de 2009

SEVERINO, NARRADOR DA MORTE E DA VIDA

Personagem secundário de Morte e vida Severina, auto de João Cabral de Melo Neto (1920-1999), publicado em1956. Severino é apenas uma espécie de corpo condutor da narrativa, que constitui um conto natalino; o retirante tentado pela morte e que, por fim, cumprida a sua educação macabra, decide permanecer vivo.
Na verdade, as personagens principais deste poema dramático são a morte e a vida: aquela tentando se sobrepor a esta pela insistência, pela freqüência que institui uma regra (“é sempre nosso serviço/ crescendo mais cada dia;/ morre gente que nem vivia”), e a segunda anulando aquela com um único nascimento, de um menino, similar ribeirinho de Jesus Cristo, capaz de trazer alento e esperança ao mundo sombrio que o rodeia e que, doravante, será a sua casa: “Belo como a última onda/ que o fim do mar sempre adia”.
Desde o primeiro trecho da viagem simbólica que empreende rumo ao litoral de Pernambuco, Severino depara-se com a morte: em funerais, velórios, no discurso de uma carpideira e, enfim, em pleno terreno da nova terra prometida, no diálogo infernal entre dois coveiros. Assim, ao encerrar sua jornada, só pensa em saltar “fora da ponte e da vida”, pois vê seus sonhos frustrados pelo peso da realidade e sua invencível aliada, a indesejada das gentes: “sempre há uma bala voando/ desocupada”.
Todavia, acontece o milagre, a vida renasce, “com sua presença viva”, mesmo quando é “explosão/ de uma vida severina”. Neste ato sempre restaurador – embora tão velho quando o mundo –, o parto, Severino, que perdera a esperança no caminho, recebe-a de volta para perpetrar uma nova viagem, no tempo agora. Ele também renasce. Aquele espaço é seu novo mundo e só lhe resta viver, fazer dele o que seus braços comportam. A provação que sofreu não foi capaz de vencê-lo. Ele a suportou como pôde e, mesmo quando pareceu desistir – ele não sabia –, apenas chegava ao paroxismo da tentação que lhe foi imposta, e da qual, fortalecido, renasceu para a vida. Foi como se Deus o guiasse, em desafio, da escuridão máxima à luz extrema.
Como Sísifo, ele sofreu o peso da ascensão ao cume sufocante e depois revigorou-se num alívio quase impessoal, ao tomar consciência de sua condição de ente que caminha para a morte, e ao adquirir a compreensão necessária de que, mesmo assim, é bom estar na vida, é preciso lutar por ela e tentar ser feliz, quaisquer que sejam as circunstâncias. Nenhuma vida, por mais vil que seja, deverá ser descartada. Sua provação não era senão um aprendizado in vivo, que lhe permitiu salvaguardar o bem mais precioso que pode existir: a vida.


Perfil publicado originalmente na revista Entrelivros, #20.
Pintura: Criança morta (1944), de Cândido Portinari.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

CAPITÃO VITORINO, VOZ DOS HUMILHADOS

Considerado por muitos uma espécie de Quixote sertanejo, aprisionado a um mundo de ilusões, o Capitão Vitorino Carneiro da Cunha – personagem do romance Fogo morto, de José Lins do Rego (1901-1957), publicado em 1943 – vai muito além deste contorno simplista, pois sua luta em favor dos humilhados e ofendidos, ainda que insensata e meio burlesca, está longe de ser um sonho, um simples devaneio: é o resultado da realidade brutal que o rodeia e uma necessidade premente, da qual ele se ocupa sem vergonha.
No lombo de sua burra, o Capitão Vitorino sai pelos engenhos de açúcar a insurgir-se contra a prepotência dos senhores rurais, a ousadia da polícia e a crueldade dos cangaceiros. À sua volta, porém, depara-se com a ignorância, a penúria, a fleuma e a incompreensão, quando não com a zombaria, da molecada maltrapilha e esfomeada, que segue às suas costas gritando sem piedade: “Papa-Rabo! Papa-Rabo!” Seu método firma-se numa ironia estóica e na oportuna consciência de que na vida, e em especial nas regiões inóspitas como o sertão nordestino, tudo se transforma para um fim irremediável. Antes de mais nada, importa conquistar a liberdade de agir e falar, conforme o que é justo e melhor para o homem. Mesmo que não se alcance nenhum efeito decisivo, houve por certo um ganho em grandeza humana.
Sua natureza reflexiva lhe permite, a um só tempo, aprovar a ação do cangaceiro Antônio Silvino, que distribui aos pobres o produto do seu saque durante a escaramuça à casa do prefeito, e condenar a forma como ele trata a velha D. Inês, mulher do mesmo prefeito, e que, por ser mulher e esposa, deve ser respeitada, poupada ao terror e à violência. Neste caso, ele exige do facínora um nível de respeitabilidade e moral que o ultrapassa...
Com o Capitão Vitorino, que é o personagem central da terceira parte do romance, fecha-se no livro o ciclo mítico dos engenhos, que vai da fartura ao fogo morto. Contrapõe-se, assim, à individualidade angustiada do Mestre José Amaro, cuja filha enlouquece, é abandonado pela esposa e não sabe o que fazer de si mesmo, e ao despotismo do senhor de engenho Seu Lula de Holanda, incapaz de gerir com eficiência as suas terras. Tais personagens formam, respectivamente, o núcleo dos dois primeiros blocos da narrativa.
É de sua boca ferina e consciente, aliás, que sai a pergunta emblemática que mede o grau de transformação por que passaram na época as regiões cuja economia dependia dos engenhos de cana de açúcar, que um a um vão sendo suplantados pelo progresso, representado pelas usinas, e pelo tempo implacável, a deteriorar tudo e todos: “– E o Santa Fé quando bota, Passarinho? – Capitão, não bota mais, está de fogo morto”.


Perfil publicado originalmente na revista Entrelivros, #20.
Imagem: edição popular do romance, pela coleção Grandes Sucessos, 1983.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

A REDOMA BUROCRÁTICA DO BELMIRO

Belmiro é o personagem-narrador do romance de inspiração machadiana O amanuense Belmiro, escrito pelo mineiro Cyro dos Anjos (1906-1994) e publicado em 1937. A trama descreve a vida burocrática de um amanuense, que periodicamente anota, num diário pessoal, os acontecimentos de seu cotidiano pacato e sonhador, dividido entre o presente introspectivo e o passado lírico.
Escrever para ele é evadir, e também um modo de compreensão de si mesmo e do mundo. Confinado a uma vida de prazeres superficiais, de repetição e inércia, de camaradagem compensatória e monótono vaivém dos dias, resta a Belmiro realizar-se em linguagem, análise e humor. Nada escapa à sua pena tensa de ironia e ternura, a sedimentar um equilíbrio que, como homem, ele não alcança.
Incapaz de levar uma vida normal, com relações mais profundas e definitivas, Belmiro chega ao ponto de privar-se de conquistar a mulher que ama e, quando a vê casada com outro homem, numa atitude de contradição doistoiévskiana, leva-lhe incógnito seu último adeus no cais do porto, vendo-a partir – satisfeito – para as núpcias com o marido. Talvez tal ato seja um emblema a encerrar, definitivamente, o Belmiro em sua redoma de burocrata sem ação para a vida, preso a um estoicismo pessoal que é quase um niilismo.
Um personagem e um romance que, como disse Antonio Candido, “insinuam-se lentamente na sensibilidade, até se identificarem com a nossa própria experiência”. Belmiro é toda uma humanidade.


Perfil originalmente publicado na revista Entrelivros, #20.
Capa da sétima edição (1971), pela antiga José Olympio.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

A VIDA EXÍGUA DE MACABÉA

Personagem de A hora da estrela, de Clarice Lispector (1925-1977), romance publicado em 1977, Macabéa é uma jovem nordestina com um sentimento de perdição no rosto. De corpo escasso, opaco, virgem, inócuo e sem enfeites, anda leve para não ser esvoaçada. Moradora de um quarto sórdido na rua do Acre, com mais quatro companheiras em iguais condições e facilmente substituíveis e que trabalham todos os dias até a estafa.
Aos dezenove anos, numa cidade toda feita contra ela, o Rio de Janeiro, tem um emprego banal de datilógrafa. Ignorante, com somente o terceiro ano primário, copia letra por letra para não errar, mas freqüentemente escreve “desiguinar” em lugar de “designar”. Tola, solitária e teleguiada por si mesma, ri para as pessoas nas ruas, sem obter qualquer resposta. Mas não se importa, não passa mesmo de café frio, por que olhariam para ela? Não passa de capim, sem floração. Tem o hábito de grudar nas pessoas, como melaço ou lama. Jamais se viu nua, de vergonha de si mesma, por ser feia ou sem importância. Habita um limbo pessoal, todo seu, sem pior nem melhor, apenas respirando: um viver exíguo.
Nas noites de frio dá a volta em si própria, fatigada, a boca aberta, nariz entupido, um rosto jovem e já com ferrugem. De dia, usa saia e blusa, de noite dorme de combinação. Desperta, é doce e obediente, com seus olhos enormes, redondos, saltados e interrogativos; olhar de asa ferida: “sou datilógrafa e virgem, e gosto de coca-cola”, define-se. Quando foi demitida por cometer muitos erros de ortografia e sujar o papel, teve a cerimônia de dizer: “Me desculpe o aborrecimento”. Então causou pena e admiração ao chefe e foi poupada... Não evoca nenhum Deus, para não receber um não na cara! Vê a existência como uma coisa que é assim porque é assim: sua melhor resposta. Só quer viver, sem motivo nem indagação. Na verdade, ela é o que é, assim como um cachorro é um cachorro, sem o saber: “já que sou, o jeito é ser”, justifica-se. Raquítica do sertão de Alagoas, sem vocação, sonhos, estudo nem sensualidade, sua única paixão é: goiabada com queijo.

Alimenta o fantasma suave e terrificante de uma infância sem bola nem boneca, e uma saudade do que poderia ter sido e não foi. Só se tornará brilhante, uma estrela, na hora da morte: seu único momento de glória. Sabe que basta apertar um botão para a vida acender, mas que botão? Prefere então não gastá-la, vivendo de menos, poupando-a. No cais do porto, aos domingos (dia em que acorda mais cedo para ficar mais tempo sem fazer nada), ao ouvir o apito prolongado de um navio, sente o coração apertar sem motivo. Como o cantar do galo na aurora de sangue, isso confere um sentido de frescor à sua vida murcha. O cúmulo de sua condição ocorre quando antes de dormir sente fome. Pensa então numa coxa de vaca, mas o que come de fato é papel picado, bem mastigadinho. Noutras noites, se contenta em rolar garganta abaixo um gole de café frio. Seu único luxo é ir uma vez por semana ao cinema. E seu único canal de conhecimento, a Rádio Relógio, simulacro para ela de nossa repetitiva tevê diária: “você sabia que Carlos Magno na sua terra era chamado Carolus?”
Assim é Macabéa. A criação máxima de Clarice Lispector, que, como nenhum outro autor até então, pintou sem piedade (mas com ternura) o ser nordestino de condição irremediavelmente nordestina que chega aos grandes centros urbanos do Sudeste para ganhar a vida e não consegue senão perdê-la, pouco a pouco ou de um sopro, brilhando por um instante no derradeiro momento da morte.
A matriz ou inspiração de Macabéa talvez seja La dentellière, de Pascal Lainé, que Clarice traduziu para a Imago em 1975, com o título A rendeira. Talvez nessa obscura novelinha francesa ela tenha fundado as bases de sua criação, o que não deixa de ser um paradoxo curioso: para ver de perto seu povo e cunhar sua personagem, fora preciso contemplá-los de longe, mediante outro filtro, outra atmosfera, outro idioma. A similar francesa de Macabéa não é muito diferente desta e está no mundo como que soprada, um cisco, um incômodo. E tem igualmente seu destino decretado por um carro, símbolo de uma modernidade que invalida a ambas. Dois mundos, dois destinos, uma só condição: continuar a viver, apesar da vida e dos homens. Cumprir a “grandeza de cada um”.


Perfil originalmente publicado na revista Entrelivros, #20.
Foto: cartaz de A hora da estrela (1985), de Suzana Amaral.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

PORQUE A POESIA É UM BEM SOLITÁRIO

Espera... Espera...
Hoje ainda
E sempre...

Até que nos sobre
Somente a vida
De sempre...
De Os prazeres e os crimes.
Foto: Nathy Silva.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

FIM DE TARDE

Lá fora, dois pombos se coçam, e um ao outro, no telhado. Enquanto eu, daqui de dentro do aquário, sou todo trabalho...

De Os prazeres e os crimes.
Foto: MiciAngora.