Sonhou que transava com três mulheres. Mais: que as satisfazia.Acordou, e nem a esposa estava ao seu lado...
Miniconto de Nem mesmo os passarinhos tristes, inédito.
Quadro: O julgamento de Páris, de Petrus Paulus Rubens (1577-1640).
O romance A bem-amada, de Thomas Hardy, metaforicamente evoca as estações da vida. Filosoficamente, lança uma teoria: amamos o amor; a Bem-Amada é uma entidade que aparece num corpo e num rosto, fica por um tempo a nos seduzir e enredar, vai embora de repente, mas um dia retorna, sob os mesmos encantos da primeira ou última aparição. Amamos, portanto, a Bem-Amada, essência sempre presente, recorrente, “substância intangível” em espírito, sonho, frenesi, conceito, aroma e resumida, metonimicamente, a “uma síntese do sexo, uma luz do olhar, um separar de lábios”. Aquela presença que “nunca estava em dois lugares ao mesmo tempo; e até aquele momento nunca permanecera por muito tempo num só lugar”. Lugar leia-se por “ser”, “pessoa”, “mulher”. Estilística e tematicamente concebido no e para o século XIX, A bem-amada tem – sem o favor de nenhum gosto de época ou moda de passagem – o requinte da eternidade.
O filme argentino Ninho vazio, de Daniel Burman, é metalingüístico. Também é uma aula de criação literária, mais precisamente de narrativa.
Todo leitor de literatura já fez, em algum momento, sua lista de preferências. Ainda que seja só para uso pessoal. Os romances que mais aprecia... Seus contos preferidos... Os poemas aos quais retorna com freqüência... Aquelas peças cujo texto, de tão fluente e profundo, prescinde da apresentação no palco...
O sol está se pondo, mas também se colocando
A grande assertiva do filme O lutador, de Darren Aronofsky, é a de que só existe uma luta e, conseqüentemente, um único adversário: a vida.
Personagem secundário de Morte e vida Severina, auto de João Cabral de Melo Neto (1920-1999), publicado em1956. Severino é apenas uma espécie de corpo condutor da narrativa, que constitui um conto natalino; o retirante tentado pela morte e que, por fim, cumprida a sua educação macabra, decide permanecer vivo.
Considerado por muitos uma espécie de Quixote sertanejo, aprisionado a um mundo de ilusões, o Capitão Vitorino Carneiro da Cunha – personagem do romance Fogo morto, de José Lins do Rego (1901-1957), publicado em 1943 – vai muito além deste contorno simplista, pois sua luta em favor dos humilhados e ofendidos, ainda que insensata e meio burlesca, está longe de ser um sonho, um simples devaneio: é o resultado da realidade brutal que o rodeia e uma necessidade premente, da qual ele se ocupa sem vergonha.
Belmiro é o personagem-narrador do romance de inspiração machadiana O amanuense Belmiro, escrito pelo mineiro Cyro dos Anjos (1906-1994) e publicado em 1937. A trama descreve a vida burocrática de um amanuense, que periodicamente anota, num diário pessoal, os acontecimentos de seu cotidiano pacato e sonhador, dividido entre o presente introspectivo e o passado lírico.
Personagem de A hora da estrela, de Clarice Lispector (1925-1977), romance publicado em 1977, Macabéa é uma jovem nordestina com um sentimento de perdição no rosto. De corpo escasso, opaco, virgem, inócuo e sem enfeites, anda leve para não ser esvoaçada. Moradora de um quarto sórdido na rua do Acre, com mais quatro companheiras em iguais condições e facilmente substituíveis e que trabalham todos os dias até a estafa.
Nos últimos minutos de seu cachorro nesta vida, o homem se perguntou, baixinho, numa expressão de contrição e ternura, se o animal sabia que estava morrendo...
Ontem, um amigo escritor confessou que uma de suas maiores frustrações foi não ter se tornado desenhista ou pintor. Disse isso naturalmente, sem mágoa, enquanto assistíamos à adaptação de O velho e o mar para um belíssimo curta-metragem de animação. Também tenho lá minhas frustrações dessa natureza, e não somente em relação ao desenho e à pintura. Estimo em demasia os músicos, sobretudo aqueles que dominam seu instrumento ao ponto de parecerem uma extensão do mesmo: a violonista espanhola Anabel Montesinos, Astor Piazzolla, Nelson Freire, o sideral Earl Hines... Certa vez li que Hemingway preferia ter se tornado músico de jazz, desejo partilhado por Orson Welles. E há escritores que confessaram grande decepção por não ter seguido a carreira de jogador de futebol ou a de ator. Por sua vez, há atores que declararam ter nascido para outro destino, como James Dean: “Representar é ótimo, e a satisfação é imediata; mas sinto que meu talento é mais para dirigir e, além disso, meu grande medo é escrever. Escrever é Deus. Mas ainda não estou pronto para esse ofício. Sou muito jovem e tolo. Para escrever é preciso ter certa idade; mas sei que quando começar... algum dia...” Infelizmente ele não teve tempo para “ter certa idade”, para aquele “algum dia” projetado e que lhe traria, quem sabe, muito mais satisfação, pois morreu com apenas 25 anos. Prova talvez de que é a vida que nos conduz.
“Não, não peço que gostem do que eu escrevo. Não peço sequer que me leiam...” Assim começava o longo poema que o poeta reescrevia, quando, com uma tijolada, cobriram-no com um pano...
Victor Vhil foi passear na praia.
Relembremos o romance Solaris, de Stanislaw Lem, e que por duas vezes foi levado à tela, em 1971 por Andrei Tarkóvski, e em 2002 por Steven Soderbergh:
Começamos a ler literatura por obrigação: porque o professor nos empurrou em algum momento a leitura de O cortiço ou de O ateneu, talvez de Dom Casmurro. Depois, se os lemos corretamente e sentimos que nossa sensibilidade se apurou, passamos a ler por hábito: já “não conseguimos não estar lendo alguma coisa”, sentimos falta de um romance, de estar com os personagens, envolvidos com seus dramas e suas aventuras; ou da música das palavras nos poemas, daquilo que estes nos dizem e "é como se estivesse brotando de nós mesmos..." Por fim, lemos por gosto (e não seria demais dizer “gosto pessoal”): o autor que nos agrada, o livro que nos agrada, o gênero que mais admiramos, o assunto que nos inspira, a forma estética que nos desperta ao mesmo tempo para o sonho e para a consciência. Neste sentido, diríamos que a leitura de literatura cumpre algumas funções ou objetivos, que são:
Os escritores − muito mais que outros artistas − são sempre indivíduos inconformados com o que fazem ou com o que os demais escritores fazem e como o fazem, não importa o gênero de sua preferência nem o contexto em que estejam inseridos. Alguns acreditam nas regras e as seguem com rigor de relojoeiro. Outros, aferrados ao extremo oposto, subvertem-nas sem nenhum critério se não o acaso, a música das palavras, a vontade desta voz primordial que rege os sonhos. Ora, lutar aleatoriamente contra um estilo literariamente bonito e correto ou praticá-lo sem concessões de nenhuma natureza é, ainda assim, ocupar-se de buscar um estilo − uma espécie de marca, pessoal ou coletiva. Na arte, como na vida, só há desprezo no silêncio, na indiferença. Quer ser contra? Não escreva.
Antes eu escrevia por necessidade de expressão e, de certa forma, para organizar o mundo à minha volta, compreendê-lo. Essa é uma utopia de muitos escritores: Moravia, Faulkner, Graciliano, Drummond. Hoje, escrevo por diversão, gozo pessoal e, talvez, vaidade. Como só escrevo o que quero, sem pressão alguma de ninguém, não vou adiante se o texto não me fornece prazer, ainda que seja uma simples crônica ou mesmo um ensaio. Quanto à poesia, é outra história: ainda escrevo poesia (e acho que sempre escreverei) impelido por uma inquietação, um abalo, algo que está temporariamente dentro de mim e teima em sair, e só o faz mediante palavras, textura sonora, metáforas, ironia. Não é por acaso que se diz que só a poesia confere sentido ao homem e à vida. Ao projetarmos um novo eu a cada poema (o eu do poema não é o do poeta, fique claro isso), nos ampliamos como homens e, assim, nos justificamos perante nós mesmos, embora para nada, já que vamos morrer. Em suma, também escrevo, talvez inconscientemente, para amenizar o fato de que estou no mundo só de passagem. Neste caso, cada texto seria potencialmente uma pegada, um vestígio de nós entregue, por algum tempo, à indiferença do mundo.
Foto: Nathy Silva.