"Eu respirava naquelas salas, como um incenso, esse cheiro de velha biblioteca que vale todos os perfumes do mundo." Antoine de Saint-Exupéry

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sábado, 5 de julho de 2014

DIÁRIO DA COPA, 33: MESSI VERSUS VAN PERSIE

De novo a Laranja (IG).
A Bélgica lutou um pouco; a Costa Rica um pouco mais. Porém, os resultados do dia refletem o esperado e especulado pela maioria quando o assunto é prognosticar: as grandes seleções, ao fim, chegam com vantagem sobre as demais, sem muita tradição. E assim, como o Brasil se impôs sobre a Colômbia, e a Alemanha sobre a França, a Argentina venceu a Bélgica (1x0) em Brasília, e a Holanda, a Costa Rica, em Salvador, muito embora esta necessitasse dos pênaltis, depois de um intenso 0x0, e de seu terceiro goleiro, Krul, que entrou em campo no último minuto da prorrogação para defender duas cobranças. É a razão acima da emoção. Veremos agora um duelo de Messi contra Van Persie. Poético já é. Se será mais ou menos prosaico, saberemos na quarta-feira. E até lá os dois já conhecerão seu adversário: Brasil ou Alemanha.

A par disso, falou-se muito ao longo do dia sobre o corte de Neymar da Copa do Mundo, depois da grave contusão que sofreu no jogo de ontem. E pede-se a punição de Zuñiga. E teme-se a sua ausência no Brasil. Não sou vidente, já disse, mas:

1) o jogador colombiano que aplicou a violenta joelhada em Neymar dificilmente será punido, pois não há evidência clara de deslealdade na cena, e o próprio Zuñiga, sem histórico de violência, já se encarregou de se defender, obviamente. O caso de Suárez é um, este é outro. Naquele prevaleceu o exotismo (mordida), um ato quase abstrato, que não podia ser previsto e que, além disso, é extra-jogo, incomoda como um corpo estranho no olho. O caso de Zuñiga pode ser avaliado como uma consequência do corpo a corpo, algo da natureza do futebol. Não há como se estabelecer se foi, de fato, uma agressão ou não.

2) na contramão do que se tem dito, acho que a ausência de Neymar será benéfica para o Brasil, que agora poderá ser mais coletivo, menos frenético, independente das arrancadas, nem sempre objetivas e sempre espalhafatosas, de Neymar. A verdade é que ele parecia estar mais interessado em seu desempenho pessoal do que integrar, como uma peça a mais, um conjunto vencedor. Em alguns momentos, tal aspecto tornava-se conveniente ao time, mas, no geral, o prejudicava. Não foram raros os lances em que podíamos decidir as partidas, e não o fizemos por causa do egoísmo de Neymar.

3) se a FIFA deve punir alguém pelo que houve, esse alguém é o árbitro espanhol. Um panaca em campo. Foi ele quem permitiu que se chegasse àquela joelhada. E deve igualmente atentar para o fato de que o juiz precisa realmente ser neutro, inclusive no idioma. Se o jogo envolve Brasil e Colômbia, coloca-se um árbitro francês ou italiano ou inglês ou sueco ou russo ou alemão. Um juiz que fale outra língua, de modo que não simpatize, nem inconsciente nem psicologicamente, com nenhum dos dois times. Contra o Chile, o juiz, se não me engano, também falava espanhol, o que é  uma lástima.

domingo, 29 de junho de 2014

DIÁRIO DA COPA, 28: A HORA DA COSTA RICA!

Costa Rica classificada no Recife (IG).
Numa postagem anterior, eu disse que a Grécia não seria fácil, como não foi. E também que a Costa Rica não poderia se assoberbar, como não o fez; aliás, ela respeitou o adversário até demais e por isso sofreu para se classificar.
 
Ao fazer o gol, numa arquitetura perfeita e um arremate preciso de Brian Ruiz, que deixou o goleiro grego parado, a Costa Rica ainda assim não mudou sua maneira respeitosa de encarar a Grécia e foi assim que, ao perder um jogador, expulso, teve toda a sua estrutura tática desmontada. A solução foi lutar para não levar gol e esperar por um contra-ataque milagroso. E à Grécia coube ir à frente, numa pressão intensa, recompensada pelo empate, assinalado por Sokratis, talvez com uma ajudinha do filósofo: 1x1.
 
Ao fim, ao vencer por 4x3 nos pênaltis, a Costa Rica viu seu esforço ser coroado pela vitória e sobretudo ganhou algum cadinho de tempo e descanso para talvez retomar sua história nesta Copa, que é mais de técnica e ataque que de superação e resistência. Nestes dois últimos quesitos, a mestra foi a Grécia, para a qual cada jogo foi uma batalha.

terça-feira, 24 de junho de 2014

DIÁRIO DA COPA, 20: O JUIZ DECISIVO

Godín: Uruguai 1x0 Itália (IG).
O melhor jogador em campo em Natal, no confronto entre Itália e Uruguai, foi o juiz. Sua soberba atuação foi decisiva para o resultado, com a assistência precisa que deu à seleção uruguaia, ao expulsar, me parece que injusta e exageradamente, o meio-campo Marchisio. Não sei nem se foi falta, mas, se foi, não sei se foi para cartão vermelho. Talvez nem para amarelo: Marchisio passa por um adversário, choca-se com outro, e a chuteira do italiano raspa a perna do uruguaio, que vai ao solo, numa cena digna do pior dramalhão mexicano. E veio o cartão vermelho, inapelável.
 
O fato é que o juiz não esteve bem. Alternava conversa excessiva com ausência de cartões, conforme orientação da FIFA, mas, de súbito, se perdeu e favoreceu decisivamente o Uruguai. Se me cabe especular, diria que foi o idioma. Mexicano, o juiz simpatizou com os uruguaios e, lá no fundo da alma, viu a Itália como o colonizador, à semelhança da Espanha, e, no miúdo do jogo, foi se deixando pender. Inclusive, foi negligente quando não puniu com o cartão vermelho o atacante Suárez, que, de fato, com um tremendo bocão, mordeu o zagueiro Chiellini. O jogador italiano chegou a correr atrás do juiz, a mostrar o ombro ─ a evidência da falta, a prova da infração  ─, mas sem efeito. O precedente lança a hipótese de que, a partir de agora, nas Oitavas, morder é válido. E teremos a primeira Copa de Vampiros.
 
Se o Uruguai renasceu no jogo em que venceu a Inglaterra, consolidou seu renascimento hoje, com a simpatia do juiz. E quando a arbitragem torna-se simpática a um time, este vai longe. No Brasil, há alguns clubes que desfrutam e muito desta prerrogativa. É bem provável que contra a Colômbia este sentimento aumente, e o Uruguai saia favorecido, mais uma vez.
 
No outro jogo do grupo D, em Belo Horizonte, a Costa Rica segurou o zero a zero contra a Inglaterra e, assim, o primeiro lugar. Um feito histórico, primeira posição no chamado Grupo da Morte, com um imprevisto desempenho que destroçou três campeões mundiais, dois dos quais saem precocemente eliminados. Para a Costa Rica, foi como ganhar a Copa, o que ela dificilmente conseguirá, e digo isso com o mesmo sentimento de simpatia que inclinou o juiz a favorecer hoje o Uruguai.

sábado, 21 de junho de 2014

DIÁRIO DA COPA, 14: MESSI!

Messi em alta (IG).
Foi tudo o que aconteceu no embate entre Argentina e Irá, em Belo Horizonte: o gol de Messi, inesperado, preciso e providencial. Tenho a impressão de que também a Argentina anda treinando na Granja Comary. Jogou tão parecida com o Brasil, que, por instantes, cheguei a ver Neymar partindo para cima dos homens, como ele gosta de fazer, em lugar de seguir pelos atalhos ermos ou  tocar a bola... Mas era Di Maria em mais uma de suas arrancadas vazias. E o Irã surpreendeu e por pouco não venceu o jogo. Virá a Copa em que o Irã fará isso, sem piedade, como a Costa Rica. Questão de tempo.

sexta-feira, 20 de junho de 2014

DIÁRIO DA COPA, 11: PURO-SANGUE!

Bryan Ruiz, autor do gol (IG).
A Costa Rica era o azarão do chamado Grupo da Morte, que reuniu Itália, Uruguai e Inglaterra, mas, em dois jogos somente, eles conseguiram três feitos: ganharam do Uruguai (3x1), bateram hoje a Itália (1x0) e, de quebra, mandaram a Inglaterra embora. Esta é a Costa Rica puro-sangue, de Campbell, Bolaños e Bryan Ruiz! Boa marcação, vontade, toque de bola e três ou quatro jogadores acima do comum, o que deixa qualquer país relativamente forte nesta Copa. Se confirmar a primeira posição do grupo, o que é algo razoavelmente fácil de conseguir, depois do que já fez, e ainda mais jogando contra uma Inglaterra eliminada, a Costa Rica deve medir forças com Costa do Marfim. Costa contra Costa. E, se não rebolar, avançará mais uma etapa. Quanto à Itália, foi morna e inoperante, nem parecia o mesmo time que ganhou da Inglaterra. Uma atuação desastrosa, que deixa seus torcedores temerosos, já que o próximo adversário é o Uruguai, redivivo!

sábado, 14 de junho de 2014

DIÁRIO DA COPA, 3: NO RITMO DE PIRLO

Foto: IG.
O terceiro dia da Copa começou em Belo Horizonte, com a vitória tranquila da Colômbia sobre a Grécia: 3x0. Muito embora a Colômbia seja um time talentoso, será sempre uma incógnita em Copas do Mundo, desde que Pelé, anos atrás, a cravou como campeã antecipada, depois de alguns feitos inusitados, como uma goleada sobre a Argentina em solo inimigo. Dali por diante a Colômbia não ganhou mais nada e viu uma geração de craques se encolher e apagar. Portanto, ainda que tenha vencido com certa facilidade e controlado o ímpeto da Grécia, a Colômbia antes de mais nada terá que superar seus traumas, o que não parece uma missão das mais árduas, se pensarmos que os adversários seguintes são Costa do Marfim e Japão. 

Do Ceará, veio, horas depois, a primeira "zebra" da Copa: Costa Rica 3x1 no Uruguai. Um mês antes da Copa comentei com um amigo que tanto Uruguai quanto Espanha eram times envelhecidos e marcáveis. O primeiro continua sem um meio de campo técnico e, agora, mais do que nunca dependente de um jogador que já não é mais o mesmo: Forlán. O segundo, a Espanha, viu seu jogo que há quatro anos era uma novidade ser desmontado pelos adversários e, a meu ver, não deverá, depois dessa derrota para a Holanda, esboçar uma reação muito consistente, a não ser que o Chile se acovarde. Portanto, a vitória da Costa Rica não chegou a ser uma surpresa, e quem viu o jogo desde o início sabia que estava por presenciar uma derrota do Uruguai, que jogava como um time sem inspiração, aferrado apenas aos nomes dos seus jogadores. Bastou a Costa Rica se dar mais confiança e colocar a bola no chão, para mostrar que é, com larga folga, o país da CONCACAF em que o futebol mais evoluiu. Em mundiais anteriores, a Costa Rica já havia demonstrado certo avanço, embora continuasse incapaz de se agigantar diante de adversários mais tradicionais. O que se espera agora é que ela não se superestime. Se isso não acontecer, fatalmente a Costa Rica estará na próxima fase, provavelmente ao lado da Itália, e, com alguma sorte, talvez até em primeiro lugar do grupo. Sempre cabe sonhar. 

No calor de Manaus, o jogo da Itália contra a Inglaterra tinha tudo para ser um espetáculo, e foi. Como se não bastasse a rivalidade entre os dois países, com cinco títulos nas costas, havia o fato de que a Costa Rica saíra vencedora do jogo anterior, e ambas as seleções, perdendo ou ganhando, tinham recebido o bônus de uma batalha a mais, pois o Davi do grupo ganhara corpo, ao bater a Celeste. Entraram então em campo com a missão de ganhar a qualquer custo para limpar a trilha futura de seus supostos percalços. Se era um jogo do "grupo da morte", tornou-se, de uma hora para outra, um jogo fatal. Mais organizada e técnica, na cadência de Pirlo, que ditava o ritmo e o toque de bola, sem pensar em ser o protagonista de nada (Ah, os Neymares deste Mundial!), a Itália tomou as rédeas do jogo, abriu o placar, levou o empate e, na volta do intervalo, assumiu de vez a vitória. E daí por diante se predispôs a marcar e se defender com eficiência. Sobra fleuma à Itália, que age e reage quase estoicamente, ao longo do jogo, como se não pudesse ser de outra forma. Nas vitórias, veremos isso como um mérito indiscutível, caso de ontem, mas, nas derrotas, haveremos de dizer que a Itália foi pachorrenta demais e por isso fracassou. Em suma, um ótimo jogo em Manaus, com três belos gols, disputado com lealdade, sem exageros, nem faltas duras, e gentilezas de lado a lado. Mais civilizado, impossível. Agora, a Inglaterra segue para o que talvez seja a sua última batalha, contra o Uruguai. E a Itália, que não veio ao Brasil à toa, mede forças com a Costa Rica. Creio que dois campeões voltam mais cedo para casa.

No jogo que fechou a noite, no Recife, o inesperado prevaleceu. Ninguém esperava que, àquela altura do primeiro tempo, o Japão fizesse um gol. Pois fez. E ninguém esperava que, àquela altura do segundo tempo, a Costa do Marfim empatasse. Pois empatou e virou. Num grupo encabeçado pela Colômbia e que ainda tem uma Grécia que é só força física e vontade, muitas vezes o suficiente para se chegar às vitórias, tudo pode acontecer.